10 anos | Parte I – 1.000 km por ano

28 Janeiro 2026

De 2012 a 2015 vivi em Maputo, com a minha melhor Amiga, a melhor Companhia, a Guerreira de todas as aventuras, a minha Mulher, Rute Gago. 

Em 2011 recebi um convite extremamente interessante para rumar à África Austral e com essa oportunidade foi possível resolver de vez a falência descrita no prelúdio.

Moçambique foi um período não menos difícil por diversos motivos, mas sobretudo pela distância. Não é aquele tipo de distância que temos dentro da Europa. Se precisarmos muito, não estamos em “casa” de um dia para o outro. É diferente. É distante mesmo. De carro são mais de 12 mil e de avião perto de 8 mil quilómetros de distância. De carro são vários dias a conduzir e de avião são perto de 11 horas sentado numa cadeira apertada, com refeições de plástico, na melhor das hipóteses. Por curiosidade, para economizar, chegámos a fazer 54 horas de avião, numa viagem de várias escalas e muito desconforto pelo meio. 

De qualquer forma, dependendo do meio de transporte, são cerca de 10 mil quilómetros de distância… É preciso planear a viagem. Agendar com antecedência.

Se já se passaram 10 anos desde que regressámos do “país azul”, posso fazer deliberadamente uma relação de mil quilómetros por cada ano de transformação que aconteceu até aos dias de hoje. Porque sim. Porque quero.

Como disse, é distante. Vale a pena demorar neste enquadramento, neste ponto de situação.

Moçambique mudou a nossa cor de sangue. Tatuou-se-nos no corpo. Cravou-se-nos na mente. Amamos aquele país, aquela gente, aquele modo de estar, aquele lugar, aquele presente. Depois de 4 anos, depois de muitos projetos, depois de muita coragem, aprendizagens e muita “bagagem” para contar, chegara ao fim mais um capítulo marcante. Era o ano de 2015 e tínhamos acabado de erguer o projeto que mudou as nossas vidas para sempre. A reconstrução da Escolinha de Inhagóia. Um momento sem paralelo. Algo que, ao recordar, arrepia. Faz chorar. De orgulho. De alegria. De saudade. Esta introdução não é para abordar esse projeto (Reconstruir Moçambique), apenas para enquadrar o momento, as pessoas, os lugares, os ambientes, as situações e as “vibes”.

Um dos temas que se debate de forma popular na nossa sociedade atualmente é a imigração. Vivi-o de perto. Emigrei e fui imigrante em Moçambique. Um choque cultural abrupto. Um crescimento necessário. Uma aprendizagem sem igual. No meu coração tenho dupla nacionalidade; no passaporte não. Não cheguei aos 10 anos de autorização de residência. Não paguei os valores. Não cumpri os requisitos. Sinto na pele esse sacrifício que muitas das pessoas que lá conheci fizeram para obter esse estatuto de “pessoa aceite”. Não é como cá. É tudo bastante mais complexo. Difícil. Socialmente tenso. Nós aprendemos esse assunto de perto, na pele, no estômago. Sabemos falar dele. Podemos falar dele. E observamos o que se vai desenrolando na nossa sociedade a cada dia. Neste mundo estranho, efémero e de memória curta que todos estamos a viver. A título de exemplo, trabalhei durante 4 anos nesse país, fiz os meus descontos tributários (como sempre, em qualquer lugar onde trabalhei) e, ao regressar a Portugal, não me foi associado qualquer valor monetário para a reforma; não houve qualquer equivalência; não foi validada qualquer comparticipação minha. Perguntam-me: se fores às finanças moçambicanas e trouxeres um documento válido, há um acordo tributário que… blábláblá. Fiz isso tudo e nem um cêntimo. T-I-A (this is Africa!). Só sabe quem experimentou. Já me conformei.

O projeto Reconstruir Moçambique precisava de tempo e nós precisávamos de condições para viver. Não podíamos esperar muito mais naquele lugar sem perspetivas sérias e sólidas de futuro. Fizemos várias abordagens aos patrocinadores e a outros contactos que tínhamos de grande valor. Houve demonstrações de vontade bastante sérias, mas não era o momento. Não foi o momento.

Foi algo que nunca percebemos – nem eu, nem a Rute -, se o projeto “poderia ter sido” ou se simplesmente “não foi” porque teve de ser assim. Naquela altura tomamos a melhor decisão para nós. Hoje, passados todos estes anos, sabemos que foi a melhor decisão. Mas ao longo deste percurso, chegámos a ter dúvidas. Não por arrependimento de cá estarmos, mas sobretudo pelas saudades do lugar, das pessoas, dos momentos que nos fizeram crescer. 

Há projetos que não têm preço. Há compensações que não podem ser medidas por dinheiro. Não sou assim, não concordo com essa forma de estar. Tenho os meus limites. E o Reconstruir Moçambique foi, sem dúvida alguma, O PROJETO sem preço; que não pode ser quantificado em dinheiro; que não foi feito por ambição monetária.

Recordo com recorrência o olhar das crianças ao ver o trabalho que fizemos… não há preço. Não há.

A vida é feita de experiências, de aprendizagens, de momentos, de pessoas, de lugares. 

Nós estávamos destinados a outros voos. A outros lugares.

Queríamos filhos. Estava na altura.

Moçambique não nos dava esse ninho. 

E Portugal era uma vontade.

Esta de-cisão deu origem aos primeiros 1.000 km de distância que deliberadamente correlaciono com cada ano de existência da B16. Outros mil haverão – e outros e mais outros – que explicarei a seu tempo. A verdade é só uma: esse corte, essa cisão que tomámos, trouxeram-nos a este momento; e, apesar de complexa, a vida está no lugar certo.

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