10 anos | Parte I – Um café n’O Castelo

4 Fevereiro 2026

Foi em setembro de 2015 que surgiu o convite e a oportunidade para regressar.

A minha primeira viagem a Portugal aconteceu 20 meses depois de lá estar a trabalhar e a viver. Em 4 anos, fiz 3 viagens a Portugal. Nenhuma delas na Páscoa, Verão ou Natal. Sempre ao lado dessas épocas festivas cristãs consideradas época alta para as companhias aéreas.

Sempre que vínhamos a Portugal, o tempo não passava; voava.

Tentávamos por tudo para estar com a família e com os amigos, mas sabia sempre a pouco. Queríamos muito gozar tudo aquilo que amávamos na nossa terra, no nosso canto, no nosso território, que sabia sempre a pouco. Sempre.

Refeições em família. Momentos com amigos. Viagens para Sagres, Praia de Faro, São Brás de Alportel, festas em barcos pela Ria Formosa, noites sem dormir… Faro era nosso. As ondas de Sagres eram minhas (todas). O Algarve era nosso. Portugal era nosso. A Europa era nossa.

Tentávamos não dormir para aproveitar cada segundo. Só dormíamos quando não conseguíamos mais. Extremo. Tínhamos uma agenda impossível.

Foi num desses dias sem fim que encontrei um amigo na primeira edição do Festival F. Numa dessas noites. Numa dessas ruas.

O que não passava de um simples “olá”, seguido de um abraço e de um “força, tudo de bom, gosto em vê-lo”, passou para um momento bem mais profundo e demorado.

Uma conversa informal com um pedagogo, gente boa. Naquela altura, por sinal, ocupava o lugar de Presidente da Câmara Municipal de Faro. Convidou-nos para O Castelo, o “bar do Jaime”, à noite, para beber um café.

Nesse Festival F, edificado e planeado pelo Grande Joaquim Guerreiro, fundador do Festival Med largos anos antes, não se passavam 10 metros sem que caminhássemos sem avistar, cumprimentar, abraçar ou beijar pessoas que muito nos diziam e faziam sentir em casa.

Foi n’O Castelo que ouvi e conversei com o meu amigo. Convidou-me para um café, mas tenho verdadeiras dúvidas porque, para mim, naquela altura eram mais canecas.

Uma conversa inesperada. Um convite inesperado. Uma oportunidade que me fez olhar para a Rute (e a Rute para mim).

Foi-me apresentada uma possibilidade bastante interessante de regressar e abraçar uma causa simples: ajudar um amigo em ação naquilo que sei fazer de melhor, isto é, planear, executar, comunicar, avaliar. Tudo com um propósito. Tudo com uma missão.

Esse momento durou até sermos empurrados para outros abraços de amor, família, amizade e loucura. Mas, na prática, deu origem a um conjunto de contactos que tornaram real essa oportunidade, ou pelo menos, a promessa da mesma.

Foi em novembro de 2015 que começou a troca de emails com um dos seus representantes, uma tal pessoa que muito me desiludiu mais tarde, mas a quem agradeço por conseguir formalizar o meu regresso, mais concretamente, a este recanto único que combina infância e Ria Formosa. Faro é – e sempre será – a minha casa.

No meu segundo ano em Moçambique, após ter trabalhado no Grupo SOICO – um grupo de media em muito semelhante ao Grupo Impresa português -, tive uma oferta de head hunting para o Grupo DDB Moçambique. Tudo foram facilidades. Não foi nada negociado. Não tive de mexer uma palha. Foi tudo fácil e orientado por esse Grupo de Comunicação. Pensei, sinceramente, que em Faro o processo fosse parecido. Senti que os meus serviços eram desejados e que assim fariam para que todo o processo decorresse com o mínimo de incómodo para o meu lado. Não foi isso que sucedeu. Pelo contrário. Fui reduzido à pequenez que achavam de mim e eu deveria ter posto um ponto final nesse episódio. Fui deixando a “coisa” acontecer e, no momento chave, confrontei-me com a realidade.

Novembro… dezembro… e em janeiro de 2016 lá vim para Portugal sozinho (a Rute veio dois meses mais tarde), para integrar a equipa e o projeto liderado pelo meu Amigo, Rogério Bacalhau.

Eu tinha uma dívida pessoal para com ele. Algo sério. Sou uma pessoa simples, mas os meus pais ensinaram-me a ter princípios. Passo a explicar: no meu 9.º ano de escolaridade – em 1992 -, no Liceu João de Deus em Faro, tive um episódio chato na última semana de aulas. Eu era um skater adolescente dos anos 90! Bonito, curioso, vivo, aventureiro, rebelde. Faltava a muitas aulas, mas sempre tive bom aproveitamento na escola. Nessa última semana de aulas, já “tapado por faltas” (sem poder faltar mais nenhuma vez), quis fotografar a minha turma e, impedido pela professora de biologia, cometi a proeza de a agredir! Um estalo na cara. É verdade. Não me orgulho disso. Não foi nada de grave, pelo contrário, foi ao de leve, mas o gesto agressor foi suficiente para ser considerado agressão. Senti-o. No próprio dia fui alvo de uma suspensão e, sem faltas para dar, essa medida implicava que eu chumbasse o ano. No dia seguinte houve uma reunião extraordinária entre o Conselho Diretivo da Escola, a Direção de Turma, a Professora agredida, eu e os meus Pais (!!!). Nessa reunião, todos os participantes votaram a favor da minha suspensão e, consequentemente, da minha expulsão do Liceu. A essa mesa estava sentado o Professor Rogério Bacalhau, vice-diretor do Liceu nessa altura. Foi ele quem apresentou uma alternativa: disse a todos os presentes que não valia a pena darem-me a suspensão e consequente chumbo de ano letivo; a alternativa passava por deixarem-me terminar os 3 dias de calendário escolar que faltavam, que tirasse aproveitamento e passasse para outra escola no ano seguinte – a Escola Secundária de Pinheiro e Rosa, onde ele iria ser o próximo Diretor. Disse ainda a todos os presentes, inclusivamente, que seria responsável pela boa condução da minha educação nesse futuro ano letivo. Algo que eu não percebi na altura, mas que compreendi mais tarde. Hoje que sou pai, não tenho palavras para agradecer tamanho gesto ou preocupação. Assim foi. Passei esse ano e fui transferido para a Pinheiro e Rosa no primeiro ano da abertura. A escola mais perigosa do concelho! O primeiro ano foi bastante violento. Muitos conflitos verbais, físicos, “porrada”, roubos, “esquemas”, “filmes”, faltas de respeito, entre tanta coisa que contrastava com a vida que eu levava no Liceu. Bullying?!? Lol! Naquela escola a minha rebeldia era brincadeira quando comparada com a vasta lista de “mafiosos” escolhidos a dedo que por lá conheci e com quem fiz amizades para a vida. E, foi no meu 10.º ano que, surpreendentemente, vi como o Rogério Bacalhau honrou a sua palavra. Acreditem ou não, ao longo desse ano, TODOS OS DIAS, “esse” professor batia e abria a porta de uma aula aleatória minha, espreitava até encontrar os meus olhos e piscava-me o olho, sorria ou dizia apenas “Olá”. Um ano inteiro, TODOS OS DIAS, a garantir que eu me portava “bem”, que não faltava às aulas, que não cometia nenhum outro “crime”. Ao longo do ano, deu para TODOS percebermos que eu era um “menino” quando comparado com os “machos alfa” lá do sítio. Pedagogicamente, a atitude dele foi irrepreensível. Estou e sempre estarei muito grato à sua atitude. Um Professor preocupado com a pessoa, com o aluno, com a criança adolescente. Marcou-me. Passou-me valores. Passou-me responsabilidade, compromisso, seriedade e lealdade. Nos anos seguintes continuou a ser uma pessoa preocupada. Demonstrou-o em pequenos gestos. Enquanto Diretor, cedeu espaços a bandas de música compostas por alunos (Punkekas, por exemplo), a grupos de teatro, a grupos informáticos e – pasmem-se! – deixou-nos usar a carpintaria para construir rampas de skate e treinar na escola aos fins de semana. Naquela altura não havia skateparks como há hoje, em qualquer esquina. Não havia! Já escrevi sobre isso algures. Para nós, que corríamos o campeonato nacional de skate, era uma oportunidade de sermos melhores, de levarmos o desporto mais a sério. Hoje, olhando para trás, reconheço nele uma seriedade educativa fora do comum. Estivemos ali, não estivemos noutro lugar. E vi muitos “amigos” a passarem-se para outros caminhos bem menos saudáveis. Foi essa a dívida que eu senti ter de “pagar” com a minha entrega profissional quando surgiu essa conversa no Festival F. Vinha de dentro. Era pessoal. E como dizia o Capitão Nascimento: “Missão dada, é missão cumprida”.

A oferta inicial de novembro consistia em integrar a equipa de trabalho da Câmara Municipal de Faro, com um contrato de trabalho e condições dignas, mas substancialmente abaixo daquelas que auferíamos em Moçambique.

Mas…
… não foi bem assim que aconteceu.

Eu – que ainda hoje mantenho viva a minha visão romântica da política e que acredito que há pessoas altruístas o suficiente para representarem e fazerem o bem comum através do desempenho de funções públicas – voltei a sucumbir à verdade de forma dura e abrupta, meses mais tarde. Se no passado eu já me tinha desiludido com a política nas minhas diversas tentativas de trabalho com o sistema público, desta vez, levei um verdadeiro murro no estômago. Desilusão foi pouco o que senti. Quando a tal pessoa me diz que não havia forma de contratarem os meus serviços conforme me fora prometido, fiquei deveras incrédulo e sem reação. Com a minha boa vontade e ingenuidade tentei solucionar os problemas (hábito meu: não ligo à causa, resolvo e pronto). Mas, mais tarde, o meu subconsciente foi-me dizendo que não foi tão fácil assim… e em nenhum momento quis incomodar o Professor Bacalhau com este assunto.

Inesperadamente, esse contrato de trabalho deixou de ser possível. Tinha de ser feito de outra forma.

Deste detalhe acrescentei ao meu paralelismo da distância mais 1.000 km’s. Foi aqui, neste pequeno “mal-entendido” que levei uma afronta de verdade e me deparei com mais dificuldades, surpresas e desilusões. 1.000 km’s de distância neste meu percurso. Foi assim, tipo, “toma lá fruta”! Já vamos em 2.000, tudo no mesmo ano…

Ao regressar de malas e bagagens em 2016, percebi que a promessa que me tinham feito, que incluía um conjunto de condições específicas de trabalho, não eram mais as mesmas. Essa tal pessoa indicada pelo meu amigo tinha-me enganado.

Já em Portugal, sem vínculo a Moçambique, fui forçado a encontrar uma solução para o efeito. Tive de aceitar o dilema e de viver com ele, pois naquela altura, eu não tinha um saco cheio de notas para poder dizer: “ok, então se é assim, fica sem efeito”, como posso hoje fazer (mesmo sem esse saco cheio de notas). Houve vários momentos em que eu deveria ter marcado a minha posição. Esta foi a primeira em que não o fiz. Não quis desestabilizar nem criar entropias. Queria que o processo fluísse e queria começar a trabalhar o quanto antes. Erro meu.

Hoje, não foi erro nenhum, foi o normal desenrolar das coisas. Era assim que tinha de ser. Era este o caminho.

A alternativa foi abrir atividade, através da constituição de uma sociedade por quotas LDA, por forma a poder prestar os meus serviços sob as regras de contratação pública. 

E assim aconteceu.

Estou cá. Estou feliz. A B16 tem 10 anos. E tenho mais do que os meus sonhos alguma vez conseguiram erigir.

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