10 anos | Parte I – Os 12 passos

25 Fevereiro 2026

“Olá, eu sou o Bruno e sou alcoólico”. Tornei-me alcoólico com a falência da minha empresa. E com todas as situações que me aconteceram nesses anos. 2009 foi um ano horrendo. Para além da falência do negócio, houve mais coisas difíceis na minha vida. Muitas. Sérias. Estruturantes. Daquelas que mexem com tudo. Com o todo. E para manter a minha atividade e cumprir com as minhas responsabilidades, tive as minhas consequências internas. Refugiei-me em vícios. Muitos. Não devo dinheiro a ninguém. Não consigo. Fico sem dormir. É horrendo. É um trauma que ficou desde esse processo de falência, desde essa altura. Tenho valores. Fui bem-educado. E não conseguir cumprir com as minhas responsabilidades mata-me por dentro. É um dos meus pontos fracos. Foram meses sem dormir. Meses. Só conseguia dormir alcoolizado. Não tinha como. Era impossível. Foram tempos muito difíceis. Já passou muito tempo desde esse período, mas nunca me esqueci dele. Está bem presente em mim. De 2009 a 2012 a minha vida foi no limite. Depois de amortizar todas as dívidas, resolvi parte do problema, mas a excentricidade e a loucura demoraram mais anos a curar. Hoje, muito tempo volvido, falo com orgulho; mas na altura, vivia em negação. E só os empresários sabem do que falo. Só aqueles cujos corações se rasgaram percebem a afetação estrutural. É preciso tempo para reconstruir. Para reerguer. Já dizia o vocalista brasileiro: “só os loucos é que sabem”…

No decorrer dos meus trabalhos para a Ambifaro e para a Câmara Municipal de Faro, comecei a perceber que há egos, motivações, interesses, jogos, falcatruas, mentiras, mesquinhices com as quais o meu carácter e personalidade não jogam. O problema não era só do “outro”. Comecei a perceber que havia um trabalho a fazer em mim. Por dentro.

E, porque nessa altura ainda não tinha feito esse trabalho interior profundo, não conseguia comunicar, entrosar ou integrar as equipas. Era preciso um discernimento maior. Mais equilíbrio. Mais consciência. Eu sentia revolta, angústia, desilusão. Ficava atordoado com a podridão do nosso sistema público.

Recordo-me, inclusivamente, de alguns episódios em que o álcool não ajudou, muito pelo contrário, piorou a minha posição sociopolítica. Recordo-me da noite em que fomos campeões europeus de futebol, da concentração das motos ou do Festival F desse mesmo ano.

Sempre fiz o que me faz sentido, de acordo com os meus princípios, com os meus valores, com o meu carácter. Nunca desisti. Recuso-me. Mas no meu percurso, sempre que algo não é correto, eu falo e aponto. Sem medo. E, aqui para nós, Político e Verdadeiro são adjetivos que não combinam. Uma frase para refletir que em tudo contraria a filosofia das ideias de onde nasceram as doutrinas. Se Marx ou Engels soubessem como está o mundo hoje… ou o Thomas Moore!… 

Foi nesse ano que deixei de beber. Nunca mais toquei numa pinga de álcool desde então. Zero. Não foi fácil. Tentei diversas vezes sem sucesso. Elaborei vários esquemas para controlar esse meu problema. Diariamente conferia os sinais de mais e os sinais de menos; as caras feias e as caras sorridentes; as cruzes vermelhas e as cruzes verdes. Até acho que inventei uma nova forma de curar os vícios aos adictos, mas nunca fui empreendedor a esse ponto. Se hoje um amigo me pedir ajuda, sei como aconselhar, falando de como fiz. Mas para o público em geral, como agora escrevo sem medo, nem sempre tive coragem para o fazer. E o primeiro passo foi pedir ajuda. Esse sim, o mais difícil. E o mais benéfico de todos.

No dia 3 de setembro de 2016, na noite do concerto de Richie Campbell, foi a última vez que bebi uma cerveja. Foi no dia seguinte o primeiro passo. Foi nesse ano que ganhei consciência e tomei algumas das decisões mais importantes para a minha vida. Pedi ajuda e entrei numa jornada tão enriquecedora como o orgulho das palavras que agora teclo. Foi um ano muito importante para mim e para os meus.

E nada disto teria acontecido sem o apoio incondicional da minha Mulher, Rute Gago, que tem estado aqui, sempre, ao meu lado. O pilar sólido da jornada que encetei.
E nada disto teria acontecido sem o apoio incondicional de uma “outra pessoa”, a Feiticeira do Vento das Terras Mouras, como eu lhe chamo, um Ser Humano incrível que me ensinou a caminhar. Alguém muito especial que tive a sorte de encontrar e que sabe mais de mim do que o fecho singular da luz do sol. Ela sabe quem é. A Rute também sabe quem ela é. Eu sei quem ela é para mim. Gratidão é pouco.
Mais uma vez: “só os loucos é que sabem”…

Cerca de 10 meses depois de integrar os projetos Ambifaro e Câmara Municipal de Faro rompi por completo com todas as equipas com que trabalhei direta ou indiretamente. Cumpri os trabalhos todos que me foram designados mas deixei de frequentar reuniões, encontros ou eventos para os quais não me pagavam. Passei a cumprir horários de trabalho e a não responder fora destes. Optei pelo básico deixando de lado a entrega total. A prioridade agora era outra: Eu!

Após concluir todos os Planos de Marketing e Comunicação que tinha a meu cargo, de os apresentar pessoalmente ao “dito cujo” (o outro, não o Meu Amigo) de quem já vos falei em capítulos anteriores, optei pela verdade “olhos nos olhos” e por seguir o meu próprio caminho.

Acrescento aqui uma nota importante, transversal a qualquer foco. É deveras importante darmos voz ao que vem do diafragma. De olhos fechados, ele comunica connosco. Eu ouço cegamente essa voz. Dou “ouvidos” ao meu instinto. Cada vez mais. De verdade. Quantos mais anos passam, mais confio nesse mensageiro interno que trago comigo. Ele tem razão. Em quase todas as vezes. Se não mesmo, todas.

10 meses depois do início do meu trabalho, informei a única pessoa que merecia a minha consideração pessoal de que já não havia condições para trabalhar interpessoalmente com ninguém. Como disse, não falhei com nada do meu contrato. Nada. Pelo contrário. Cumpri até ao final dos 24 meses. Mas tendo uma empresa, poderia seguir o meu próprio rumo. Foi o que fiz.

Há passos que não são dados em frente. Por vezes são dados para trás, outros para o lado e outros sem sair do sítio. E esses passos ajudam-nos a caminhar. Em novembro de 2016 abriram-se portas que nunca imaginei possíveis. Iniciei várias viagens ao mesmo tempo. A mais bela delas todas, a minha. Comecei por descobrir quem sou; o que sou; como sou; porque sou; entre tantas imagens, histórias, mágoas, visões, surpresas e demais vitórias que esse mundo interno guarda para os mais atentos e corajosos. Depois, em simultâneo, fiz um passeio de bicicleta de Sagres até Sines com a Rute, também ele inolvidável. Foi nesse passeio que tivemos a surpresa da “azeitoninha” que estava para nascer daí a 7 meses, a nossa filha, a Olívia. Outra viagem deslumbrante, nova, assustadora, incrível e complexa. Confesso que ainda não estava preparado, mas que me ajudou imenso a crescer. Um sinal do poder superior. Tudo, nesse momento em que “fechei a janela e abri as portas” que me estavam destinadas. Cada uma delas, em crescendo exponencial até aos dias de hoje. Gratidão. Fortuna. Abundância.

A celebração da primeira década da B16 coincide com a celebração da minha própria sobriedade. Há alguns meses de diferença, mas celebram-se no mesmo ano. Não vos sei explicar quão forte e importante é para mim. Peço-vos apenas que acreditem. À sua escala, é um projeto do qual me orgulho muito. A B16 tem-me dado motivos para sorrir, para ser feliz, para estar feliz. Com dificuldades (ou sem elas); com desafios (ou sem eles); com pessoas (ou sem elas); tem sido uma caminhada de guerreiro. Um guerreiro de valores. Um guerreiro de princípios. E sinto-me deveras orgulhoso da caminhada. Não é a meta que importa, é o caminho…

Nenhum Cliente da B16 pode dizer até aos dias de hoje que não fiz; que não entreguei; que não cumpri. Podemos não ter tido o mesmo sucesso com todos os projetos – obviamente – mas entregámos o melhor de nós a todos eles.

E, em paralelo, o outro guerreiro: Eu. O mais importante. Obrigado Mãe. Obrigado Pai. Obrigado Família. Obrigado ao Mundo todo com o qual me cruzei até hoje. Foram vocês que me permitiram ser assim. O crescimento faz-se com o tempo, com a observação, com a disponibilidade para aprender. Nalguns capítulos anteriores abraço uma metáfora sobre a distância percorrida para chegar à celebração do décimo aniversário da B16. Momentos chave que desmontam esse intervalo proferido ao longo da caminhada. Esta viragem em particular – como podem calcular -, soma mais uma milena deles. Já vamos em 3 mil.

Tento ser resiliente, empático, ambicioso, honrado, cumpridor, dedicado, humilde, leal, respeitador e corajoso. Os valores dos samurai. Bushido. A vida em cada fôlego.

Dar o melhor de mim no pouco que faço. É essa a minha forma de estar.

Sem medo. Sem rodeios. Sem floreados, pontes ou saltos em branco. Muitas pessoas viram e sabem quem fui, como fui e onde fui. Rodas à frente da autoridade; mortais para trás à beira do precipício urbano; corridas à frente do comboio; mergulhos na água de rochas com dezenas de metros de altitude em noites de lua cheia; saltos de paraquedas alterados; conflitos sociais; revoltas; marginalidade; skate, drogas e hardcore! Acordar com ratos sobre o lixo; deambular em noites sem luz; viver perigos indescritíveis; ak’s 47, 8mm preta ou armas brancas pontiagudas apontadas à flor da pele; bem acompanhado, mal ou só; cá, lá, em todo o lado. Experimentei de tudo. Perguntem e é provável que “sim”. A verdade é só uma: são necessários 12 passos para ver a luz do céu, o chilrear do nascer do sol, a magia utópica da onda, os pormenores escondidos da serra, a complexidade da energia humana, a inexplicável conexão ao lugar, a espiritualidade do Ser, entre todas as maravilhas que cada dia engloba em si mesmo. Eu não dei os 12. Passei por todos, mas só dei alguns. Espero dá-los enquanto respiro. Mas contemplo tudo. E sou tão mais feliz agora.

A B16 foi uma extensão de mim neste ano. Depois mudou, como explico de seguida.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO NOSSO DOJO

ENVIA MENSAGEM AO CLÃ!

Se partilhamos o mesmo caminho, porquê caminhar sozinho?
Se partilhamos os mesmos princípios, porque não lutar lado a lado?

(Envia-nos uma mensagem. Prometemos uma resposta ágil).

SEGUE
O CLÃ

Queres novidades sobre as nossas missões? Uma visão do nosso dia-a-dia? Uma troca de memes?
Segue-nos em todas as plataformas.