10 anos | Parte V – Confinados no Ludo

4 Setembro 2026

Não me rodeio de pessoas que me façam crescer o suficiente. Sei que é uma frase injusta para aqueles que o fazem, efetivamente. A verdade é que – da minha experiência -, os fazedores, construtivos, empreendedores e inovadores são, na sua maioria, pessoas positivas. Olham para o copo meio cheio. Visualizam o bem, o bom, o fim. O achievement. Em contraposição, para as pessoas negativas, o foco é predominantemente destrutivo. Nostálgico. Evidente. Formatado. Há a metáfora dos caranguejos dentro do balde. Todos tentam subir para a liberdade. Quando algum consegue alcançar o bordo para se elevar e sair, é puxado para baixo pelos outros que não o deixam sair. Não querem. Não conseguem vê-los partir. Os haters. Os conformados. Aqueles que não querem fazer mais um pouco. Olho para a minha vida e tento sair da minha zona de conforto de quando em quando. Já o fiz por diversas vezes. Pretendo voltar a fazê-lo. E a rotina – “a roda do rato” como costumo chamar-lhe – cega-nos, se não estivermos atentos.

A companhia foi deveras importante no tempo da pandemia.
E eu fui um verdadeiro sortudo.
Afortunado.

Ao longo dos períodos de enclausuramento nacional, uns maiores do que os outros, os concelhos recebiam estados de alerta coloridos, de dia para dia. Vermelhos, laranjas, verdes, azuis, cor-de-rosa às pintinhas azuis, negros, bege, púrpura. As regras mudavam constantemente. Se num dia não podíamos sair do concelho, no outro não podíamos sair de casa; se num dia tínhamos períodos de quarentena curtos, no outro eram prolongados; se num dia não podíamos fazer isto, no outro não podíamos fazer aquilo. As notícias faziam parecer que tudo era uma brincadeira. Os governantes contradiziam-se. O mundo tinha dois focos: evitar a propagação e desenvolver/ produzir a vacina que iria resolver todos os problemas. O mundo estava hediondo.

A companhia era a solução.
E eu, olhando para trás, estava na melhor de todas.
Feliz, até.

A pandemia teve consequências muito más. Já mencionei algumas no capítulo anterior. Mas também teve resultados positivos. Alguns, maravilhosos, até.

Enquanto dava voltas dentro de mim pelas razões que já referi no passado (plano de negócios, recursos humanos, fluxo de produção e visão de futuro da B16), eu precisava de boa companhia. Enquanto eu lambia as feridas dos três telefonemas que me cancelaram os resultados positivos do ano 2020; enquanto eu geria a ausência do Viking e tentava coordenar as necessidades com novos membros, enquanto eu fazia o luto do projeto que me iria fazer regressar a Maputo nesse mesmo ano; eu precisava de entretenimento para assimilar toda essa confusão psicológica em que me encontrava. Era complexo. Não tinha forma de manter o chão. Tudo era negativo e novo. Sentia-o. Percecionava-o. Identificava os pensamentos e confrontava-os com formas de estar positivas.

Também fumei demasiadas “laitas” nesse ano. Não eram precisas tantas. Mas fumei diariamente muito. E os preços subiram muito com essa escassez. Estava tudo muito controlado. Escasso. As “laitas” têm consequências em nós. Aparentemente são boas, mas têm mazelas subliminares na nossa mente: perda de memória, oscilações de humor, esquizofrenia, falta de foco. É preciso saber controlar tudo isso. E, se não for controlado, soltam-se-nos atitudes inesperadas nos momentos mais surpreendentes. Já não fumo há alguns anos. Mas lembro-me que naquela altura haviam “altos e baixos” na minha mente.

Quando dei por mim, passei por todos os meus problemas de forma suave, alegre, feliz, completa. Fomos nós. Só nós. Eu, a Rute, a Olívia e o Tofo. Só nós. Completos. Felizes. Seguros. Cúmplices. Confinados no Ludo. No meu Ludo.

Em 2005, quando entrei como diretor de marketing e relações públicas no imaculado Teatro Municipal de Faro, troquei de carro e aluguei casa nas Gambelas. Mesmo ao lado do terreno onde edificaram o Hospital Particular, mas que na altura era um descampado de terra. No meio do meu trabalho árduo no teatro, eu conseguia ter tempo para andar de bicicleta, correr, caminhar, passear, explorar de carro e conhecer o ludo, como poucos conhecem. Na minha adolescência íamos muitas vezes ao ludo fazer coisas de adolescente. Nesta fase posterior da minha vida foi interessante recordar esses tempos de adolescente e acrescentar-lhe uma perspetiva mais aventureira e exploradora. Conheço bem aquela terra “sem lei”. Aquela fronteira entre o concelho de Faro e o concelho de Loulé. Aquele lugar abandonado onde a natureza ainda respira, fala, conecta e existe. Com as suas particularidades de inverno, primavera, verão e outono. Sempre diferente. Sempre único.

Que passou a ser o Ludo da Rute. E o Ludo da Olívia. E o Ludo do Tofo. O nosso Ludo.

No dia em que o meu Tofo partir, não tenho a certeza onde irei realizar o seu ritual de partida para o novo mundo. Se em Sagres, onde já sepultei o meu primeiro cão, o Renato Filipe; se no Ludo, onde ele foi feliz e me fez companhia tantas vezes. Acho que ao escrever estas linhas acabo de o decidir. Até já sei onde. Naquele lugar onde ele sorri tantas vezes.

Com ou sem proibições de deslocação, era comum entrarmos no Ludo por uma das suas entradas e, assim que nos encontrávamos lá dentro, todos os caminhos nos levavam ao que pretendíamos fazer nesse dia. Era fácil chegar onde quer que fosse. Lembro-me por diversas vezes da Rute ficar espantada como uma estrada conectava com um lugar onde já estivéramos outrora; como uma zona era tão perto de outra; como um lugar novo, logo a seguir ao outro, podia ser tão diferente e distinto do anterior.

O Ludo é magia. E é fácil perceber porque nenhum dos autarcas ou municípios consegue fazer dali o que quer que seja. Têm medo. Não têem capacidade de entender o lugar. Sabem que vão fazer asneira. Seria preciso alguém de mentalidade superior para saber aproveitar aquele lugar. Dar-lhe dignidade. Devolvê-lo às pessoas com o respeito que merece. Com regras. Ordem. Mas a liberdade que lhe persiste. É do Ludo que vamos à Quinta do Lago, à Quinta do Eucalipto, ao Troto, a Almancil, ao Patacão, às Gambelas, à Ria Formosa, ao Vale das Almas. É no Ludo que vemos todo o tipo de animais. Há quem o procure para bird watching¸ para montar a cavalo, para ver roedores ou, simplesmente, para tirar aquela fotografia dos flamingos ao pôr do sol com as salinas de fundo. É no Ludo que há flora interminável. Seca, molhada, grande, pequena. É no Ludo que vamos apanhar pinhas para a lareira de inverno. É no Ludo que construo castelos de areia com os meus filhos. É no Ludo que faço buracos, covas, esconderijos. É no Ludo que vemos marcas de 4×4, trilhos rasgados pelas motos ou as bicicletas silenciosas a deslizar. É no Ludo que vemos pessoas, animais, famílias, amigos a sorrirem. É no Ludo que a noite aterroriza, interrompendo o silêncio com barulhos de animais cinematográficos assustadores. É no Ludo que o céu estrelado ou a lua cheia faz magia. Já fiz amor no Ludo. Já dormi no Ludo. Foi no Ludo que comi piqueniques inesquecíveis. Foi no Ludo que estendi a minha manta amarela e li livros ao som do vento. O Ludo é tudo. O Ludo é nada. E também é no Ludo que os “animais humanos” depositam entulho, lixo e despojos de outrora. Também há lados negros no Ludo. Também há histórias de bruxaria. Por incrível que pareça, também há tags no Ludo. E festas. E raves. E, até ao incêndio recente, também ali vivia uma comunidade de hippies conectados com o pôr do sol, com a natureza, com a vida. Também é ali que se vão assistindo a vestígios do homem mau. Há cerca de um ano cortaram milhares de árvores. Sim, milhares. E em nenhum lugar apareceu uma notícia sobre esse assunto. É como lhe chamo: a terra sem lei. Mas é a minha terra. E mato se algum dia me sentir ameaçado. Porque me sinto em casa. E naquele tempo, no tempo da pandemia, com a minha família linda, não só mataria, como faria questão de pendurar os corpos que fossem no cimo das árvores como forma de anunciar ao mundo que ali não se brinca. Tal e qual Gangs de Nova Iorque. O Ludo não é só meu. Tenho grandes amigos que o amam. Mas também é meu. Nosso.

Foi no Ludo que ficamos confinados.
Foi no Ludo que vimos a nossa filha crescer.
O nosso cão correr, saltar e ser feliz.

E, enquanto eu fazia o meu luto pessoal do projeto Reconstruir Moçambique 2020, enquanto eu lamentava a ausência do João Guerra, enquanto eu me transformava em Fénix, renascido das cinzas, com o ar, energia e força da minha própria família, o Ludo era a nossa cola, a nossa união, o nosso ponto de equilíbrio, a nossa casa exterior.

Mas não foi só no Ludo que estivemos confinados. Também fomos a Sagres, a Monchique, a São Brás de Alportel. Também exploramos a serra que nos circunda. De forma tola, ingénua e simples. Chegar, parar, montar o estaminé e esperar que o dono do terreno não nos viesse pedir para sair, como chegou a acontecer. Fizemo-lo para todos os limítrofes da nossa capital algarvia. Para qualquer um dos lados. Fomos explorando a rosa dos ventos. Eram dias infindáveis. Longas semanas. Longos períodos.

O nosso Algarve é lindo. Tão lindo.

Ao longo do processo de confinamento, a lealdade do MAR Shopping Algarve marcou-me muito. Chegavam-me vídeos filmados por diversas pessoas e eu, com a ajuda de um editor de vídeo chamado Rui Aguiar, recebia-os, cortava-os, editava-os, transformava-os em conteúdo MAR e devolvia-os para serem publicados nas redes sociais. Com sucesso. Muito sucesso. Foi no tempo do Covid que o MAR iniciou a rubrica dos Healthy Days. Uma das rubricas com mais sucesso online. Centenas de milhar de visualizações, muitas das vezes. Com vídeos de desporto. Filmados em casa. Sem medo. Sem vergonha. Com muita confiança, até. E as edições não eram as melhores, no início. Mas as pessoas viam-nas. E partilhavam-nas. E nós sentíamos o feedback. Mais tarde, à medida que as restrições suavizavam, começamos a produzir de forma séria estes conteúdos. Por vezes com duas, três ou quatro câmaras em simultâneo. Com refletores, luzes e outros apetrechos. Foi nesta fase que se iniciou este caminho. Em certa medida, estes tempos deixaram saudade. E eu nunca me esquecerei da lealdade deste Cliente.

Foi também neste ano que eu e a Rute tivemos a oportunidade de fazer um curso de construção alternativa. Fomos a Famalicão (sem a Olívia) durante um fim-de-semana, para aprender como se constroem casas com pneus, garrafas de vidro, garrafas de plástico, pigmentos para colorir paredes feitas de argamassa natural, entre outros segredos de construção que nunca imaginámos existirem. Foi um fim-de-semana esclarecedor que nos deu ideias para o futuro, quer para nós, quer para novas oportunidades que a vida traga se o projeto da nossa segunda pátria avance algum dia.

A única dificuldade séria da pandemia foi mesmo o assunto vacinas. Não neste ano, mas nos tempos seguintes, creio que em 2021, quando ela chegou. Esse tema foi abruto, difícil, forte. A única atrocidade foi essa obrigatoriedade de nos vacinarmos com ameaças complexas no caso de optarmos pelo oposto. E nós éramos (e somos) a favor do oposto. Não fomos vacinados. Grande parte dos conteúdos que consumíamos diziam-nos para não o fazermos. E tentamos ser fiéis à nossa forma de ver o assunto. Mas foi difícil. Muito difícil. O mundo, o país, a região, a cidade, a nossa envolvente, a nossa família, tudo nos pressionava para que fossemos vacinados quando tudo nos dizia para não sermos. E depois começaram as ameaças. Se não fores vacinado não podes isto e aquilo; se a tua filha não for vacinada acontece uma desgraça; se… porra! Caramba! Que pressão! Que manipulação! Que opressão.

Passados estes anos todos, sabendo o que sabemos hoje, o tema vacinação Covid tem muito que se lhe diga. Houve muitas questões sem resposta. Muitas represálias sem consequências. Muitas mortes sem prisão. Muitas decisões sem responsabilização. Muitas atrocidades sobre o ser humano, sem a culpabilização adequada.

Não quero apregoar, pregar ou vender demagogia. O que quero é dizer que não fui vacinado por convicção, por apoio mental de um grande amigo meu, por cumplicidade da minha querida companheira de vida, por sentir que não era esse o caminho. E olhando para trás, estou brutalmente orgulhoso pela escolha que fizemos. Pela opção que tomámos.

Circo para o povo.

Esta expressão é profunda. “Circo para o povo”. Quando o povo está prestes a contestar, questionar ou opinar sobre os líderes patriarcais do planeta terra, há que entretê-lo. Fazem-no a escalas micro todos os dias. Eu assisti a falcatruas, corrupção, mentiras e má gestão autárquica. Escrevi sobre isso. Estamos a falar de um concelho de 60 mil cidadãos votantes. Em portugal os concelhos estendem-se para números infindavelmente maiores. Se formos mais longe, para outros países, para outros continentes, o panorama será sempre o mesmo. E quando o povo começa a ripostar, toma lá circo. Em portugal há tanto futebol, tanta novela, tanto programa televisivo da desgraça, tanta comunicação social sensacionalista. O povo leva isso. Come isso. Vive disso. Disso e das revistas cor de rosa. E das dentaduras perfeitas. E dos corpos e lábios cheios de toxina botulínica. E das fotografias perfeitas do instagram. Mil cliques para uma fotografia, filtro, filtro, post. Tudo mentira. Tudo fingido. E eu sou um afortunado por ter vivido como vivi. Sou um revoltado por ver o que vejo. Mas fico ferido e defensivo quando vejo que me tentam impingir algo que não me faz qualquer sentido. Se me sinto abusado quando me cancelam um compromisso por causa de um jogo de futebol, imaginem como me sinto quando me dizem que a minha filha não tem escola se não for vacinada com a sopa da morte? Já estou a escrever coisas a mais.

Sou contra a vacina do Covid.
E sou filho de médico. Médico que fala maravilhas da mesma. Médico com quem tive diversos confrontos sobre essa mesma vacina. Mas que respeitou a minha decisão.

Sou contra a vacina do Covid. E acho que todo esse período foi abafado, escondido, perpetuado em silêncio absoluto. Hoje é a guerra. Já ninguém fala do Covid. Ou, pelo menos, as notícias, os estudos, as investigações que chegam a público com dados, números e informações chocantes, não têm lugar nos nossos canais de comunicação. São abafadas. Mortas à nascença. Filtradas. Proibidas. Banidas.

Por estas razões e outras, muitas das vezes, sinto-me absolutamente desenquadrado da sociedade em que habito. Porque os livros contam-nos uma história de uma “nação valente e imortal” que, hoje, está tão conformada com a ordem do dia que tem perdido a valentia e a imortalidade a cada segundo que passa. Estudei com os melhores. Na universidade dos melhores. Questionávamos e falávamos sobre tudo. Inclusive, sobre o “povo que não governa nem se deixa governar”; sobre o “modo de ser português”; sobre o país dos 3F’s (Fátima, Fado e Futebol). “Heróis do mar” quando a Visão de Portugal não tem qualquer relação com o Atlântico. O “esplendor” foi noutros tempos que já não voltam. Os Homens que o fizeram, eram outros. Os políticos formados nas escolas das juventudes partidárias não sabem quanto pesa um balde de areia; quanto mais quanto custa construir um “esplendor”. E depois, esse nosso saudosismo não nos leva constantemente para a morte do Sebastião… aquele que nos irá guiar à vitória. Só esse. Mais nenhum. E se não for Sebastião, é para deitar abaixo. Tal e qual o meu querido Pedro Passos Coelho (sim, aqui pelo meio, é esse o meu político de eleição; sou passista!). “Às armas, às armas!”? Mas quem? Quem defenderá a nossa Pátria quando nela não somos envolvidos? Quem defenderá a nossa Pátria quando nela não somos protegidos? Quem defenderá a nossa Pátria quando os Homens de Verdade não se envolvem na mesma? Nos dias de hoje, o País está a ficar cansado. Vai sendo levado. Com o mínimo de reclamação possível. E tenho orgulho em ser “cancelado”. Não me importo. Sou um não religioso em busca da fé, heterossexual, passista, homem clássico, amante de bodyboard, não racista, xenófobo dos que não respeitam o outro, ex-emigrante e revolucionário sempre que o tema o exige. Sou anti vacina Covid.

Não me rodeio de pessoas que me façam crescer o suficiente. Talvez elas me ajudassem a mudar a minha mentalidade. Talvez na pandemia eu tivesse passado o tempo de outra forma, com outra mentalidade, com outro envolvimento. Acredito que sim.

Não há um ser humano no planeta terra, nem morto, nem por nascer, que pudesse ter mais importância do que a minha própria família. Foi a minha Mulher, a nossa Filha e o nosso cão Tofo que me acompanharam nesta fase difícil e que a tornaram fácil, que a pintaram de magia, cor, memórias e sorrisos. Foram elas e ele que me fizeram crescer. Que me fizeram subsistir. Que me fizeram persistir.

E eu não poderia estar mais grato.
Aos meus.
E ao Ludo.

Porque foi lá que estivemos confinados.
No Ludo.

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