A sobrecarga de trabalho e o cansaço acumulado do João trouxeram uma lição muito séria que tive de aprender à minha custa. O João não teve culpa. Foram 2 anos e meio de trabalho árduo. Do final de 2016 ao meio de 2019 não parámos. Foi incansável. Constante. Na linha vermelha. E embora tivéssemos começado a trabalhar com várias outras pessoas, conforme já mencionei, havia algo bastante único na edição do João que eu tinha dificuldade em ver nas restantes pessoas que editavam para mim. O erro era meu, não das pessoas. Era um mau hábito meu. E tive de começar a ver o melhor em todos os videógrafos com quem trabalhei depois disso. Foi uma aprendizagem que levou o seu tempo. Mas cheguei lá. Em abril já havia um conjunto de projetos com responsabilidades de diversas pessoas. Mas poucas ou quase nenhuma em relação à edição. Era sobretudo filmar e fotografar. E foi a meio deste ano que se iniciou um novo capítulo na B16.
O João Costa continuou a trabalhar com a B16 ao longo dos anos vindouros, como poderão comprovar os próximos capítulos. Ainda hoje há matéria que não pode ser descurada do Marcelo Souto ou do João Costa. Tatuaram na B16 diversas formas de trabalhar, de executar, de criar. Devo-lhes muito. Não me canso de agradecer. Já o fiz até aqui. Continuarei a fazê-lo nos anos que descreverei, cada um a seu tempo. O João parou nesta fase porque estava exausto. À beira de um esgotamento. Fê-lo à sua maneira. Embora talvez até essa altura me tenha dado sinais que eu negava entender. No capítulo anterior fiz uma metáfora sobre o término de uma relação amorosa. Também é necessário referir que nessas situações, ou na maioria delas, há sinais. Há comportamentos que devem ser percebidos. Há silêncios, expressões, evidências (não evidentes) que estão lá, mas que teimamos em não ver. E, depois, quando acontece, não há volta a dar e ficamos incapazes de aceitar que o fim chegou. Na minha vida pessoal já tive isso a sério. Relações amorosas que me doíam visceralmente e biologicamente, que me tiravam o sono, a respiração e a capacidade de pensar. Aceitar. Compreender. Ver. Amei sempre demasiado. A tal falta de equilíbrio. Nunca 8, sempre 80. E as consequências da falta de equilíbrio são enormes. Custam a aceitar. A interiorizar. A assimilar. A encaixar no todo que somos. Tive duas, em particular, cuja cura se prolongou por muitos e muitos anos. A primeira consegui, décadas mais tarde, resolver e encontrar forma de me relacionar com a pessoa em questão. Hoje nutro um enorme carinho por ela, sem que haja quaisquer confusões de sentimentos. A segunda nunca mais a vi, passadas décadas. Não sei o que sentirei quando a voltar a ver diante de mim. Porque sempre amei a sério. E porque acredito que quando amamos de verdade, esse amor é verdadeiro e sincero – eterno, até. Assim sou com a minha família. Assim fui com todas as mulheres que amei até hoje. Com todos os amigos. Com todos os animais (cavalos e cães, sobretudo). Até com lugares. E com coisas. E quando algo acaba e termina, é complexo. Há um filme que diz: “Todas as coisas acabam mal, se assim não fosse, não acabariam.” Concordo com isso. E neste caso do João Costa, um amigo que virou colega de trabalho, foi difícil naquela altura, mas também foi como o primeiro exemplo de pessoa que referi. E não foram precisos anos para voltarmos a estar juntos. Ainda hoje estamos. E naquela altura, passaram semanas ou mesmo meses. Mas a ferida ficou. A cicatriz marcou a pele. E nada poderá alterar esse marco na história da B16 ou no empresário que me tornei.
Em abril fui ao Porto com a minha mulher e a nossa filha Olívia. Foi o seu primeiro voo de avião. Um passeio muito bonito, por sinal. Adoro o Porto. Sempre que lá vou, fico com a sensação de que o tempo que passa sabe a pouco. Já houve momentos em que pensei viver e trabalhar no Norte. Nunca aconteceu. Mas não digo que não poderá acontecer um dia. Gosto das pessoas do Norte. Sempre gostei. Malta rija. Sincera. Com carácter. Dos que conheci até agora, foi essa a opinião que me ajudaram a formar. E foram muito importantes estes dias. Para mim. Para a minha família. Para o João. Para a B16.
Foi também em abril que a B16 apoiou simbolicamente a produção do Share Algarve. Associamo-nos ao evento na categoria “Apoio” e tivemos o prazer de estar presentes. Assistimos às palestras, deambulámos pelo recinto, fizemos contactos e o nosso logótipo apareceu em vários canais de comunicação. Obrigado pela oportunidade, Jorge e Miguel. Sinto um enorme orgulho neste tipo de produções, nestes eventos, nesta visão holística do Algarve e do que aqui se vai fazendo. Felicito-os sempre que os vejo. Já organizaram este e muitos outros momentos bem interessantes. São pioneiros neste burburinho que têm vindo a desenvolver no Algarve. Incrível, mesmo.

E a verdade é que, por mais que sentisse a saída do meu “parceiro”, do meu “companheiro de batalhas”, da pessoa que me ajudou a fazer crescer o negócio, eu sempre adorei o que faço. Sempre adorei a nossa história. Sempre amei a empresa a ponto de sacrificar muita coisa por ela. Era ali que eu estava. Era ali que me sentia bem. Naquela sala pequena, cheia de histórias de amor. Onde cada canto, cada detalhe, cada quadro, cada caneta, cada livro, cada dossiê, contam histórias de embalar (para mim, certamente). Foi com suor. Com pulso. Com sacrifício. E o lugar não podia perder o seu brio só porque alguém resolveu desistir. E eu tinha uma família em casa. Da qual me orgulho muito e para quem tudo quero providenciar. Tinha chegado o momento de abrir a porta a outros “ocupantes”, a outros “tripulantes”, a outros “marinheiros”, a outros samurai.
Vou fazer aqui uma graça que não tem graça nenhuma. Mas apetece-me. Faz sentido. É-me útil. Brejeira, até. Sem nível. Bastante oportuna para mim neste momento. Apetece-me falar sobre novas namoradas. Apetece-me falar sobre novas relações. Apetece-me falar sobre os erros que cometemos, sem querer, quando entramos numa nova relação. Depois de muito tempo com a mesma pessoa, mesmo que haja um longo período sem ninguém, ao relacionarmo-nos com um novo amor, pode acontecer, algum dia, que nos enganemos no nome que estamos a chamar, por uma questão de automatismo. É um erro. Pedimos desculpa, falamos sobre o assunto, colocamos uma pedra, fazemos as pazes, levamos tempo a assimilar e a perdoar, mas, com a esperança dos envolvidos, será algo que não voltará a suceder. Caso se repita, ou o humor se impõe, ou alguém ficará em maus lençóis. E digo que me apetece fazer uma graça porque nesta fase da história da B16 houve algo semelhante à correlação amorosa que tento evidenciar. Na minha vida, tive uma relação muito séria e longa com uma mulher chamada Rute. Essa relação terminou, passei vários anos sem uma relação duradoura e, quando encontrei a mulher da minha vida, o seu nome – feliz ou infelizmente – “também” é Rute. O primeiro nome dela não é esse, é outro. Tem outro primeiro nome de registo. Mas todas as pessoas que a conhecem chamam-na Rute e não pelo primeiro nome. Ora, para mim, essa evidência tornou-se útil. Nunca me enganei no seu nome. O mesmo já não aconteceu do outro lado. Mas para mim foi ótimo. E na B16 – só pode ser a minha mente a fazer essa relação – aconteceu-me exatamente o mesmo. A séria e longa relação que tive com o João foi substituída por outra com o “mesmo” nome. E a coincidência é interessante. São pessoas diferentes. Incomparáveis. Não é a comparação. É a graça brejeira.
Com o foco restabelecido, comecei à procura de freelancers que tivessem outro tipo de ambição. Alguém que pensasse a longo prazo. Que quisesse ocupar esse lugar mais sério de videógrafo residente. Que me ajudasse a resolver o pickle que tinha nas mãos. A Vânia estava em processo de acalmia. Precisava de tempo para ela própria e sempre que havia projetos mais exigentes, a pressão subia e não era bom para ninguém. O Ricardo Flôxo era um empresário em ascensão que fazia uns “biscates” naquela altura. Ele trabalhava para muitas empresas e Clientes em simultâneo. Sempre que podia, aceitava os nossos desafios, mas foi sempre um processo complexo de gerir na sua agenda. O Nuno Relógio também tinha outra ocupação a full time. E o Nuno não gostava de editar. O Tiago Cruz, um fenómeno, trabalhava com o Ricardo. E o João Guerra encaixava que nem uma luva sempre que estávamos juntos.
Sinto-me estranho por ter comparado uma antiga relação amorosa à minha Mulher. Sinto-me estranho por ter comparado uma antiga relação profissional ao que tenho para dizer. Não há qualquer relação. Não gosto mais de ninguém. Não gosto menos de ninguém. Foi uma forma de escrever o que me vai na alma. Ninguém é menos que ninguém aqui. Ninguém é mais. Foi o que foi. Continua a não ter muita piada. Continua a ser brejeiro. Mas a minha barriga diz-me para continuar. Para deixar ficar. E assim farei. Vou deixar.
Comecei por passar inúmeros trabalhos do MAR Shopping Algarve ao João Guerra. Depois pedia ajuda e conselhos ao Ricardo para perceber se estávamos no caminho certo; se poderíamos melhorar; se poderíamos acrescentar algo. Naquela altura, a minha preocupação era entregar e, relativamente a novos projetos, logo se veria. A verdade é que começaram a aparecer projetos feitos pelo Guerra que me tiravam o chão. No bom sentido. Vários, assim de seguida. Começámos devagar, mas tudo foi crescendo rápida e consistentemente. Para além dos projetos recorrentes do MAR, semanais (quase), houve muitos conteúdos da sua responsabilidade naquela altura. Ele fez toda a campanha de conteúdos informativos sobre o estacionamento da empresa municipal Loulé Concelho Global comigo. Foi uma campanha demorada, delicada e complexa, por sinal. Os moradores estavam furiosos com a forma como se regulava o estacionamento no Concelho e a nossa visão era dar a conhecer os diversos lados do problema. Eu tenho muito orgulho neste trabalho. Fomos muito bem tratados. Mas foi um trabalho que teve consequências políticas chatas. Enfrentar os problemas quando envolvem público não é fácil. As pessoas são cruéis. E nós demos o corpo às balas. Também foi com o Guerra que fizemos a Inauguração da Loja da Mobilidade, a Feira do Chocolate do Mercado Municipal, todas as fotografias institucionais dos diversos setores de operação: estacionamento, mercado, transportes públicos, mobilidade suave, carregamentos elétricos, bicicletas partilhadas, entre outras áreas de atuação. Praticamente, todo o trabalho multimédia que foi feito para a Loulé Concelho Global é da sua autoria. O Guerra também produziu e editou trabalhos para o Designer Outlet Algarve, alguns deles bem sérios, como por exemplo o evento dos carros antigos ou o Late Night Shopping com o Herman José (um ídolo meu, desde sempre). Trabalhamos com outras pessoas e fomos dando o nosso melhor em cada desafio que surgia. A ideia era produzir os trabalhos e dar sempre um extra para “limpar” a lista dos 22 vídeos que estavam pendentes e por editar. E os resultados iam aparecendo. Íamos entregando.
No meio destas produções, parti o dedo anelar direito. Um episódio que meteu cães, família e amigos. Uma cena estranha, indesejada, um pouco surreal até. Para quem já partiu pulso, pé, joelho, cabeça; para quem já teve roturas de ligamentos sucessivas nos pés por causa do skate; para quem já teve duas roturas de ligamentos muito graves em ambos os joelhos; partir um dedo – pensava eu – seria tranquilo. Mas não é. Não foi. Não é fácil se recuperar de um dedo partido. O meu levou anos a curar, com idas sucessivas ao Hospital Distrital de Faro, duas a três vezes por semana, no Gabinete de Terapia Ocupacional, bem cedinho, pela manhã. Doeu tanto. Gritei tanto. Sofri tanto. E depois, no meio de uma das manhãs, senti-me pequenino ao ver o sofrimento das outras pessoas que ali estavam e que lutavam pela vida. Lutavam por mobilidade básica, por membros quase perdidos, por funcionalidades impossíveis… e foi ali, naquele lugar, que mais uma vez aprendi o meu. Passei a ficar calado. A sofrer para dentro. A não verbalizar aquilo que tanto me fazia chorar de dor, porque ao lado estava alguém que tinha o triplo, quádruplo ou dez vezes mais dores que eu e, porque precisava para trabalhar ou para cuidar dos seus, focava-se, calava-se e fazia o que precisava de ser feito. Aprendi muito naquela sala. Devo muito àquelas pessoas. A todos. Tenho um carinho especial pelo António, pelo João Paulo, pela Clarisse, mas nutro uma admiração por todos eles que, uma ou outra vez, me trataram, cuidaram, trabalharam para que eu não perdesse a funcionalidade do meu anelar direito que mal fechava, mal mexia e cujas limitações tiveram de ser corrigidas à base de rasgamentos sucessivos de ligamentos, músculos, inflamações constantes, aumentos e decréscimos de temperatura, esforço abusivo das extensões, trabalho de espelho, injeções, whatever! É surreal aquela sala. Quem lá esteve sabe. Bem hajam.

Sem me aperceber, já tinha a escova e a pasta de dentes lá em casa no mesmo copo.
Já tinha estendido uma máquina e dobrado a sua roupa interior em cima da cama.
As bolachas das passas desapareceram misteriosamente. Não me lembro se fui eu, Amor.
E no balcão da cozinha deixei uma garrafa vazia com uma rosa lá dentro em água.
É assim que as coisas se tornam sérias. Nos pequenos gestos. Nas pequenas coisas.
Passam-se os dias e não há outra forma de vida.
O Ricardo Flôxo é uma pessoa que faz tudo e mais um par de botas, como se costuma dizer. Ele tem mulher e duas filhas: é um homem de família, acima de tudo. Depois tem animais. Não sei se tem gatos, cães ou outros, mas sei que tem galinhas, que só por si é “obra”. Tem património que gere numa perspetiva muito séria e com legado. É formador, dá aulas e acompanha a entrada no mercado de muitos dos videógrafos que o Algarve, Portugal e o mundo têm vindo a receber. É um tutor. Depois, toca música. Tem uma banda. Dá concertos. É produtor. Anda de bicicleta, faz desporto e é uma daquelas pessoas que apelam ao culto da mente, do espírito e do corpo. É uma excelente companhia, per si. Estar com o Ricardo é passar um bom tempo. É rir, pensar, refletir, aprender. E, ao nível profissional, é pioneiro no nicho da pilotagem de drone qualificada. Ainda os drones não estavam massificados, já o Ricardo pilotava e operava câmara em simultâneo. É comum ver o Ricardo com o Tiago Cruz a trabalhar em conjunto. Um pilota, o outro filma. Ambos com uma técnica exemplar. E o Ricardo faz isto há anos. Trabalha com todas as agências que conheço no Algarve há muitos anos. Tem no seu portfólio prémios mundiais. Já participou em projetos aclamados pela indústria e é uma prova viva de dedicação e profissionalismo. Nunca fui ao âmago do Ricardo. Não precisei. Não aconteceu. Mas a verdade é que ele percebeu o lugar onde eu estava e ajudou-me imenso. Devo-lhe muito. Ele percebeu a quantidade de trabalhos que a B16 tinha para entregar, ajustou-se ao nosso calendário, adaptou-se, fez preços especiais para nos ajudar a organizar o processo de edição e entrega, editou, coordenou, distribuiu tarefas e acompanhou grande parte desta jornada que tivemos para recuperar tempo e posicionamento de mercado. Filmou para quase todos os Clientes e, como escreverei mais adiante, participou nos projetos mais importantes deste ano de 2019. O Ricardo tinha uma marca através da qual promovia os seus serviços nas redes sociais. Era qualquer coisa como “Flyover Algarve – The Flôxo’s Nest”, uma associação à obra-prima de Milos Forman, de 1975, o que revela bom gosto. E, para quem gosta de cinema como eu, chamá-lo de “mocho” não é pejorativo. Pelo contrário. É reconhecer no Ricardo aquilo que ele tem demonstrado ao longo destes anos de trabalho árduo. Hoje, o “mocho” tem uma empresa sólida, em crescimento, baseada no profissionalismo a que tem habituado os seus Clientes. O passa-palavra comprova que o seu trabalho veio para ficar. A Algarve Studios é um espaço multidisciplinar onde recebe Clientes, onde produz de forma incansável, onde tem vindo a fazer crescer uma máquina de produção de vídeo, fotografia e, inclusive, está num processo de transformação em agência criativa. Inevitável nesta indústria em que nos posicionamos. Nunca o vi como concorrente. Aliás, não creio que eu tenha concorrentes. Sinto, sinceramente, que as agências que me inspiram de verdade são catalisadores e combustível para a nossa melhoria contínua. Precisamos uns dos outros. Há uma agência em particular a quem envio mensagens privadas a felicitar pelo trabalho que faz com regularidade. Ele sabe quem é. E também me responde. Acredito nesta forma de estar. E o Ricardo também é assim. Se não tivesse sido, a B16 não teria ultrapassado esta fase do seu caminho. A título de exemplo, foi com o Ricardo que fui à reunião de apresentação do resultado do pacote de vídeos e comunicação que fizemos para o Algarve Chef Experience. Uma reunião inesquecível, para mim, que só aconteceu em novembro deste ano. Lá chegaremos. Ao Ricardo, O Meu Sincero Obrigado. Guardo-o com carinho na lista de pessoas que fazem parte da nossa História. Falarei mais sobre ele. Adiante.
A relação amorosa ideal, aquela em que sinto visceralmente a ausência da pessoa que amo, é simplesmente isso. Amar é dar. É ser com. É consumir o ar, a água, a saliva, o calor, o suor, o silêncio, a canção. É seduzir e ser seduzido. É partilha. É estar no momento certo, com a companhia certa. É o olhar, o sorriso, o toque, o aconchego, a concha. É o encaixe. É o sangue a correr. É a aura, a neblina e o outono. É o verão dentro do mar. É mergulhar nas ondas altas e ser enrolado com a consciência do corpo e do lugar. É o orgasmo. Os orgasmos. O beijo. O respirar. É o toque dos dedos por entre os cabelos longos. É o meu nariz no seu pescoço. É fechar os olhos e estar sem mais nenhum lugar para onde ir. É tanto mais que as palavras não prestam. É tanto mais que as palavras não chegam. É tanto mais que as palavras não são precisas. É tanto mais. É mais. Mais. Sou um afortunado pelo que já vivi. Acredito que tenho ainda muito por viver, mas sou um afortunado pelo que já tenho guardado. E este assunto foi consumado por inteiro no meu eu. Se havia algo com que sonhara quando era criança era isto. Ser fortemente apaixonado. Amar incondicionalmente. Ser com outra pessoa. Fui. Estive. Amei. Sou. E depois vieram os filhos. E, no meu caso, tudo mudou. Porque o amor que nasce, cresce e transborda por eles é difícil de gerir. E eu estou numa fase em que não sei bem como agir. Porque amo de verdade. Ela e os nossos filhos. Voltando ao texto, o paralelismo com as relações amorosas terminou. Aqui. Agora. Porque eu quero. Porque é evidente. Serviu para explicar como sinto de verdade todos quanto amo, mas a uma longa, interminável e irrealista distância intergaláctica do verdadeiro amor que acabo de descrever.
E sem me aperceber, o Viking do coração doce foi-me acompanhando de carro nas produções pelo Algarve. Passava horas ao meu lado no escritório. Falávamos incansavelmente ao telefone, no whatsapp, nas redes sociais. Preocupava-se como eu. Pensava nas coisas e tentava encontrar as devidas soluções para os problemas. Antecipava-se. Carregava as baterias, limpava os cartões, preparava os horários e desenhava planos e ideias-base para os trabalhos que tínhamos pela frente. Sem lho pedir, começava a editar materiais que tínhamos para entregar. Sem lho pedir, sugeria músicas, ritmos, ideias para os projetos que íamos produzir. E conversávamos horas sem fim. E ríamos. E cantávamos as músicas do Plutónio que ficavam em repeat na pen drive do foguetão. Ainda hoje lá estão, mas não as ouço. Falta-me o seu trautear. Sempre que ouço aquele álbum, o Viking senta-se ao meu lado. Ouço a sua gargalhada, vejo o seu sorriso e recordo as lutas, batalhas e magias que vivemos em conjunto. O João Guerra foi um profissional de excelência, um colaborador preocupado, um colega interessado, um amigo inesperado. Participou em tudo quanto havia. Acompanhou-me em vitórias especiais. E, a seu tempo, trarei à superfície as que mais nos marcaram neste e noutros momentos.
O Guerra e o “mocho” foram a solução para o vazio deixado nas ondas da Praia de Faro. Foram emoção e razão, em simultâneo. Foram cumplicidade, profissionalismo e entrega. Fizeram e fazem parte da B16. Na prateleira de Playmobil que conta a História de todos aqueles que por cá passaram, estes dois representam o João e o Ricardo.
O que é o Amor? Alguém já encontrou a definição perfeita? Quão longe pode ir esta dissertação? A que ponto? Com que conclusão? Imagino eu que cada pessoa, com base na sua bagagem emocional, espiritual, mental; com base no seu baú experimental, relacional e de vivências; com base nos livros que leu, nos filmes que viu, nas viagens que fez, nos momentos que guarda; com base nos traumas, deceções e perceções do Eu; com base em tudo e em nada; cada pessoa consegue descrever o Amor à sua maneira. Seja por frases escritas por outros, por palavras ouvidas, por expressões emocionais e eloquentes saídas de uma frase de um bolinho chinês ou de um pacote de açúcar da chávena de café; cada pessoa consegue e sente à sua maneira. Para mim, o Amor foi algo que desejei desde sempre. Talvez porque me fora incutido em criança como um marco a alcançar; talvez porque tenho percebido cedo que a partilha é mais forte que a solitude; talvez porque no meu eu, aquariano, criativo e emocional, haja um conforto fugaz nessa magnitude exponencial que tudo ganha quando essa outra pessoa faz parte do mesmo caminho. Mas o mundo mudou. O mundo mudou muito desde que fui criança. O mundo hoje é efémero, volátil, de plástico. E não saberei passar essa efusividade aos meus filhos se não a viver no presente. O que é o Amor? Será que é preciso descrevê-lo? Ou é sentido e tudo o que não for comparável está efetivamente distante como de galáxias se tratasse essa medição? Amo-me. Amo-a. Amo-os. Sou amado. Fui amado. Amanhã, é outro dia.