10 anos | Parte IV – As ondas do Costa

26 Junho 2026

Faço bodyboard desde criança. Adoro a sensação de estar envolto no mar, na água, na natureza. O som da água. O silêncio. O som das gaivotas. Ser enrolado pela força do mar. Em ondas pequenas ou grandes, o meu prazer é quase o mesmo, o que varia é a quantidade de adrenalina e de medo. Quanto mais em forma me encontro, mais apto estou para correr riscos. E como já apanhei sustos valentes, faço sempre a gestão das condições em cada dia e em cada estado físico e psicológico. Quanto mais em forma, maior o mar; quanto menos em forma, maior a cautela. Tenho ciclos. Sou de modas. Quando começo, fico vidrado. Quero mais e mais. Chego a ir duas vezes de Faro a Sagres por semana só para ir às ondas. Faço cerca de 250 a 300 km de cada vez. E vale a pena. É rejuvenescedor. Reaviva tudo. O corpo, o sangue, a pele, o olhar. Os pulmões. A língua. É vida. Sou um privilegiado por ter o lugar sagrado tão perto de mim. Sagres é isso que quer dizer. Vem de Sacrus. O “meu” promontório sagrado. Quando paro, fico meses sem fazer. Mas a verdade é que acabo sempre por recomeçar. E ando nisto há décadas. A minha paixão pelas ondas começou com o meu irmão quando éramos miúdos. Fomos brincando com pranchas de esferovite, depois de borracha e só na minha adolescência é que comprei a primeira prancha mais a sério. Desde então já tive dezenas. Naqueles tempos, não sei porquê, havia quase sempre ondas em Faro. Apanhávamos o autocarro das 06h20 da Penha para a Praia de Faro e éramos os primeiros a chegar. Passávamos lá o dia. Havia dias intermináveis. Como nós, tantos outros jovens farenses, amigos, grupos. Autênticos gangs da paz. Com os anos mudei de pranchas, fatos e pés-de-pato (barbatanas). Já surfei algumas ondas diferentes: em quase todas as praias no Algarve e Costa Vicentina; praias do Centro e Norte de Portugal; Fuerteventura, Bali, Senegal, Moçambique, África do Sul e, a mais recente e inesquecível, às ilhas Telos (Mentawaii), na Indonésia. Ainda tenho muitos lugares onde quero ir. Tudo a seu tempo. Mas este desporto tem-me trazido uma paz incrível ao longo da vida. Em jovem lutava comigo próprio para aprender a fazer manobras e a capitalizar o meu ride; hoje, nada disso. Quero apenas curtir e envolver-me no mar. Se há manobras, porreiro; se não há, porreiro também. Mas cada vez que faço um tubo daqueles à séria, ganho anos de vida. É essa a busca. É esse o Amor.

Era comum naquela altura, sempre que o trabalho deixava, tirarmos um dia para irmos a Sagres fazer bodyboard, conversar, passear, passar tempo juntos. Falávamos imenso sobre a empresa, sobre nós, sobre o que queríamos alcançar e a distância a que estávamos de o fazer. Muitas das vezes fomos na minha carrinha velhinha Peugeot Partner, outras fomos na carrinha Volvo do João e, mais tarde, no “foguetão” Dacia Logan MCV que a B16 tinha acabado de comprar. Foi neste ano que vendi a Partner. Lembro-me que custou muito ao nível emocional. Eu gostava da independência e da liberdade de poder dormir onde quisesse. E as histórias que tenho nela, nem sei por onde começar. Na maioria das vezes íamos sozinhos. Mas chegámos a ir com a Vânia, com o Relógio ou com o Pedro “Fera”. Sempre foi algo recorrente na empresa. Quando sinto que o trabalho deixa, no dia anterior ou no próprio dia de manhã, mando a mensagem a dizer: “Vamos a Sagres?”. E a euforia impõe-se.

Naquele início de 2019 as coisas estavam a correr de forma maravilhosa. Estávamos completamente entrosados: a Vânia dava conta do MAR Shopping Algarve, o João bombava nos projetos mais difíceis, e eu estava envolto nos desafios da Loulé Concelho Global, Sisgarbe, Infralobo e outros. Tínhamos projetos em curso em que recorremos à ajuda de freelancers, como o João Guerra, o Ricardo Flôxo, o Nuno Relógio, o Tiago Cruz, o Pedro Dias ou o Artur Marcus. Fizemos maravilhas. Estávamos ao rubro. A aceitar cada vez mais trabalhos. A inovar. A deixar marca. Mas sempre com a mesma postura de dar o máximo em cada coisa que fazíamos.

Foi também no início de 2019 que fizemos o vídeo da “água”. Ou do “Bruce Lee”. É sobre a nossa forma de trabalhar e de nos envolvermos com cada Cliente. A ideia é simples: quem trabalha connosco percebe que somos como a água; infiltramo-nos, moldamo-nos, cabemos nos espaços e envolvemo-nos de forma visceral e total. É essa a magia da nossa entrega. Amamos o que fazemos e cada desafio é isso mesmo, uma mostra da nossa entrega. Tenho um carinho especial por este vídeo. Fizemo-lo na Barbearia da Baixa com a ajuda, paciência e tranquilidade do também João, o proprietário. Em duas horinhas, entre põe e tira roupa, entre corta aqui e corta ali, o resultado foi este:

Naquela época publicávamos de forma orgânica o que fazíamos, como que se à espera de alguém que clicasse no vídeo de forma milagrosa e quisesse vir trabalhar connosco ou precisasse dos nossos serviços. Não sei quem viu. Não sabemos. Mas nós vimos. Produzi-mo-lo. Sabemos que o fizemos à nossa maneira, com a nossa vontade. Foi um trabalho sem nexo. Um investimento sem retorno. Fazer por fazer. E, na verdade, há muitos conteúdos destes que pautam o nosso caminho. Investimentos que fazemos só porque sim.

Tenho feito consultoria empresarial com diversos fornecedores. Aquele que mais destaco e com quem gosto mais de aprender é com a Academia do Paulo de Vilhena em Lisboa. Já fiz várias formações com eles. Já contratei os serviços de consultoria e tive acompanhamento com o consultor Ricardo Brás, uma pessoa fantástica com quem tenho vindo a aprender imenso. E a verdade é que nenhum empresário nasce ensinado. Há dons, magias, características internas de cada um que ganham mais ou menos forma, de pessoa para pessoa. Eu nunca imaginei ser empresário e a minha mentalidade mete outro tipo de metas à frente dos projetos que não apenas o dinheiro ou o resultado financeiro. Para todos os milionários que leio, vejo ou com quem aprendo, a regra é “não perder dinheiro”. O Warren Buffet diz, inclusivamente, no seu conjunto de regras base para a gestão empresarial que há duas regras infalíveis que cada empresário deve seguir: a primeira é “Nunca perder dinheiro”, e a segunda é “Nunca esquecer a regra número 1”. Engraçado e igualmente magnífico. É aquele o foco. Dos milionários. E eu nunca serei um deles de forma voluntária. Conheço-me. O meu foco não é esse, nunca foi. Sou mais de Ser do que do Ter. O meu foco foi sempre outro. Contudo, na Academia aprendemos a moldar um pouco a perspetiva. A acertar o foco de acordo com as necessidades do dia-a-dia. A ajustar as alavancas para tomar as melhores decisões. A ler os números. A preparar o caminho após a assertiva leitura dos resultados. A definir a estratégia de A a Z antecipar o futuro que está por vir. A identificar o que não estou a ver. Há muita coisa que aprendi, aprendo e continuo a aprender diariamente. A maior dificuldade é mesmo a gestão do tempo entre família, trabalho, indivíduo, lazer. Conseguir aprofundar a sério os conhecimentos adquiridos e implementá-los. É a conjugação de tudo. E convém não interromper o foco. No meio de uma aprendizagem eloquente e sedutora, surge um “fogo para apagar”, um trabalho agendado, um entregável que não podemos descurar. E também não consigo deixar de priorizar a família. Ver os meus filhos crescer não tem preço. É assim. Mas já melhorei imenso no processo. A intenção é melhorar sempre.

Neste início de ano fizemos muitas coisas. Uma delas foi o lançamento do nosso próprio website, como referi no último capítulo. Produzimos uma campanha a sério. Mais de 10 dias a produzir, a experimentar, a testar, a captar, a registar, a compilar. Depois foram meses de edição a selecionar, a adaptar, a modificar, a montar, a conjugar. Adoro os vídeos que partilhei. O vídeo principal do samurai, o making of da produção, os conteúdos isolados que ainda hoje podem e devem ser usados por nós, os stop motions, os time lapses, as fotografias, enfim, tudo. Fizemos um trabalho to be proud of. E o website não ficou aquém das expectativas. Pelo contrário. Entregamo-nos, dedicamo-nos à séria, aos textos, à seleção das peças, à disposição dos conteúdos. Tivemos reuniões quase diárias com o Marcelo. Eu escrevia, o João corrigia; o João escolhia conteúdos, o Marcelo selecionava; o Marcelo apresentava soluções e nós os dois contribuímos com inputs, sempre em crescendo. De forma positiva e a agregar valor. Era um projeto a 3 mãos. Conectámos naquele trabalho. Pela primeira vez na curta história da B16 tínhamos um “mini” portfólio online. Um lugar que dizia ao mundo o que tínhamos feito com cada Cliente. O problema, o estudo, a forma, o método e a solução. Começamos com conversas online mas tudo coincidiu com uma viagem que o Marcelo fez a Portugal. Parecia estar escrito. Foi um momento inesquecível.

No dia em que lançámos o website lembro-me de termos ido surfar a Sagres. Foi uma espécie de prenda que demos a nós próprios. E tivemos pena do Marcelo não poder vir connosco. Ele já tinha regressado para o Japão. Mas partilhamos com ele a nossa celebração. Não sei se apanhamos ondas ou não. Sempre que vamos não significa que hajam ondas. Muito mudou nesse sentido. Hoje em dia há uma aplicação com webcams distribuídas pelas praias e com a meteorologia do local que nos permite analisar e prever com a maior assertividade a nossa escolha e lugar para surfar num determinado dia. Mas naquela altura não havia. Guiávamo-nos pela generalidade das previsões meteorológicas. Sei que fomos celebrar e que foi bom. Como todas as vezes em que íamos curtir para o mar, fazia-nos bem. E nós gostávamos. E gostamos.

Tenho muita dificuldade em identificar que projetos fizemos, em que altura, com quem e por que motivos. 2019 foi mais um ano de “fábrica”. Foram dezenas de vídeos promocionais, de eventos, de reportagens. Foram rebrandings, consultorias, restylings. Foram projetos de raiz, recorrências de atividades, reforços e muitas solicitações. Trabalhávamos regularmente com o MAR Shopping Algarve, com o Grupo Timing, com a Sisgarbe, com a Loulé Concelho Global e com o Designer Outlet Algarve. Fizemos projetos com todos eles a um ritmo alucinante. E, como éramos só 3 pessoas, a metodologia variava de acordo com o tempo disponível e com as necessidades de faturação da própria empresa. Se havia urgência de “meter” uma fatura na rua, tentávamos completar este ou aquele trabalho; se conseguíssemos criar o nosso próprio pipeline de produção, então fazíamo-lo à nossa maneira, sem qualquer apoio de software de Gestão de Projeto ou o que fosse. Tínhamos um quadro na parede onde apontávamos os dias de filmagem e os dias de entrega. De acordo com o mesmo, fomos gerindo as prioridades.

Eu supervisionava tudo. Sabia o que se passava em todo o lado, a toda a hora. Na maioria dos casos estava presente nas pré-produções, nas produções e nas pós-produções de cada projeto. Mas nem sempre dava. Tentava estar com o João e com a Vânia sempre que eles tinham de ir filmar. Tentava acompanhar o processo de edição de cada trabalho. Tentava gerir a empresa, gerir os Clientes e gerir todo o universo de consultorias que dependiam inteiramente de mim. Era eu que contratava os freelancers que ajudavam nas produções de vídeo, era eu que fazia as consultorias empresariais de comunicação e/ou marketing com os Clientes, era eu que contratava os artistas do design (Marcelo, Tiago, André, Rui, outros), era eu que apresentava os resultados, era eu que vendia mais ideias e mais projetos, sempre na tentativa de fazer crescer o negócio e de poder avançar com contratações mais sérias das pessoas que trabalhavam comigo. Eu era a única pessoa que tinha um contrato de trabalho com: a segurança social, o irs, o seguro de acidentes de trabalho, o subsídio de alimentação, as condições de Higiene e Segurança no Trabalho, entre todas as obrigatoriedades de contratação que uma empresa tem de cumprir. Mas a ideia era formalizar a contratação do João Costa e da própria Vânia. Era primeiro começar com a formalização contratual do João e depois avançar para uma avença com a Vânia. Mais trabalhos houvesse, mais projetos teríamos para abraçar, mais condições teríamos para solidificar a estrutura da empresa. Era essa a Visão. O João Costa, até essa altura, passava recibos verdes. Foi assim durante muito tempo. Com o bom e o mau desse tipo de relacionamento. Posso dizer que houve muitos meses em que não tirei salário para poder cumprir com todas as minhas obrigações. Nunca faltei a uma responsabilidade. Já falei sobre isso noutros capítulos. A falência do meu primeiro negócio em 2008 não me deixa voltar a esse estado de espírito destruidor que é de dever 1 euro a quem quer que seja. Nunca fui preso, mas não quero voltar para essa “cadeia” psicológica. É assustador. Não volto. Ponto final. Ou seja, para avançar com qualquer contratação, preciso de uma segurança atroz. Ou pelo menos era assim que eu sentia nessa altura. Por isso era mais fácil para mim alocar o João à centralidade da empresa e ao normal desenvolvimento do negócio. Lembro-me, inclusivamente, de falarmos na possibilidade de uma sociedade. De ele poder vir a ser meu sócio. De ter uma participação. Chegámos a falar nisso com um advogado nosso conhecido. Mas sempre com a perspetiva de que a empresa precisava de crescer e fortalecer a sua estrutura para cumprir com tudo direitinho.

A Vânia captou e editou dezenas de conteúdos de vídeo para o MAR Shopping Algarve. O João via e dava-lhe dicas para melhorar, mudar, alterar ou aprovar. Foram meses de trabalho intensivo e a Vânia colmatava os trabalhos mais simples. Eventos, sessões de desporto, atividades para crianças, novos serviços, concertos, produções. Ela estava a ficar cada vez mais independente. Mas no meio dessa magnitude, teve umas complicações pessoais que não a permitiam dedicar-se tanto quanto queria. Tinha outras preocupações. E foi ficando um pouco ausente. De qualquer forma, o João assegurava o trabalho e, sobretudo, focava-se nos desafios mais complexos que o MAR nos trazia. Foi no primeiro trimestre deste ano que iniciámos um dos trabalhos mais desafiantes: o pacote de conteúdos para o projeto dos 4 Chefs de cozinha, exclusivo daquele centro comercial. A ideia era conhecê-los de perto, nos seus ambientes pessoais e nos seus ambientes profissionais, e “casar” essa relação com o restaurante que representavam: José Domingues com o Portuguese Lab, Leonel Pereira com o ThaiBrás, Guy D’oré com o Bistro e Louis Anjos com o My Pasta. O Algarve Chef Experience era uma ideia diferenciadora que precisava de uma abordagem concreta na sua comunicação. Não havia como competir com as cadeias internacionais dos restaurantes fast food se não houvesse uma desconstrução do produto diferenciado que estes 4 restaurantes ofereciam. Era necessária uma comunicação específica. Não havia qualquer comparação. Nos ingredientes, na conceção, no serviço. Alguns deles são Chef Michelin. E foi nesta fase que eu e o João Costa fomos gravar com cada um, durante dias, com o objetivo de produzir vídeos longos, curtos e teasers para implementar uma campanha de paid media que ajudasse a comunicar o conceito, a comida, o lugar. Recordo-me de filmarmos com o Chef José Domingues na ponte da Quinta do Lago, com vista para a Ria Formosa; de filmarmos com o Chef Guy D’Oré a apanha de ostras na praia de Faro; de irmos entrevistar o Chef Leonel Pereira ao Restaurante São Gabriel em Vale do Lobo; e de irmos entrevistar o Chef Louis Anjos a uma quinta de especiarias para os lados de Tavira. Foram momentos de proximidade, compromisso e responsabilidade que partilhamos com cada um deles. Acolheram-nos como se fossemos da sua família. Deram-nos a provar as suas iguarias e especialidades. Privaram connosco. Confiaram em nós. E a expectativa do produto final era muito grande. Horas de brutos e de planos de corte para editar e selecionar. Um trabalho que fomos captar e que ficou no tal pipeline de pós-produção para editar assim que possível, no tal quadro branco da empresa.

Também fizemos imensas produções para o Grupo Timing: vídeos curtos para promover casos de sucesso de trabalhadores que acabaram por firmar contrato com os respectivos empregadores; eventos e vídeos promocionais para o ginásio Help 21; para vários restaurantes; conteúdos específicos para os diversos negócios do Grupo. Uns mais curtos, outros mais elaborados. Fartamo-nos de captar material para posteriormente editar.

Mas também fazíamos outras coisas. Muitas delas na Loulé Concelho Global, muitas na Infralobo e muitas no Designer Outlet Algarve. Umas foram entregues e cumpridas; outras foram produzidas com ajuda dos freelancers que referi, outras ia sendo eu a desenvolvê-las na totalidade.

Mas a verdade é que, no meio de tanto trabalho, as edições foram-se acumulando.

Já mencionei uma vez, mas menciono as vezes que forem necessárias: não basta filmar, é preciso saber editar. Quem capta imagens tem de ter uma ideia de como ficarão na montagem final. Filmar por filmar não tem grande consequência a não ser que a fotografia base seja passível de ser comunicada per si. É preciso ter uma ideia da cadência, do momentum, da transição, da composição, do mood, da emoção final que o conteúdo pretende transmitir. E o João era exímio nisso. Ele sabia como os vídeos iam ficar, mesmo antes de os começar a filmar. A Vânia já começava a entender o tom de voz do MAR Shopping Algarve e com isso conseguia editar os conteúdos que captava. O João não, o João preparava-se para cada projeto à sua maneira, com a sua própria visão, com a sua “lente” interior e, sempre que entregava o produto final, ele tinha um cunho próprio. Uma linguagem própria que acrescentava valor. Se o entrevistado dizia qualquer coisa de importante, o enquadramento do plano reforçava o que era dito; se o entrevistado não dizia algo, mas que era necessário, o som, a transição ou a velocidade ajudavam a transmiti-lo; se os planos eram por si só merecedores de exclusividade visual, o João conseguia com uma determinada música engrandece-los, reforça-los, enaltece-los. A captação de vídeo é importante, claro. O enquadramento, o foco, a ação, as configurações de cada câmara, de cada lente, de cada equipamento. A estabilidade do tripé, o movimento da gimble, a magnitude de uma grua ou de um cable cam, um plano de drone, uma caixa estanque dentro de água. A iluminação, os filtros, os crops, os zooms. Tudo é importante. Mas é na edição que valores mais altos sobressaem: a cultura musical, a cultura do movimento, a cultura da arte pela arte. O texto, a poesia, o som. O silêncio. A palavra. E o contraste entre todos eles. É essa visão que não é fácil de encontrar. E na B16 já trabalhámos com todo o tipo de pessoas e já aprendemos com todas elas. Desde os amadores que ainda estão a aprender e que precisam de tempo para o respectivo aperfeiçoamento, como alguns estagiários ou freelancers pontuais com quem não voltei a trabalhar; aos verdadeiros profissionais que têm diversas pessoas envolvidas nos projetos, uma para a realização, outra para a produção, outra para operação da câmara, outra só para a focagem dos planos, outra para a iluminação, outra para a sonoplastia, entre todo um conjunto de pormenores que aumentam os resultados finais, de equipa para equipa. Já tivemos projetos em que a equipa técnica era composta por mais de 20 pessoas, só para a captação. Depois há os one man show. São muito raros, caros e ocupados. Mas estão aí. E é maravilhoso trabalhar com eles. O João era um desses. Com o seu próprio estilo, com a sua própria linha. A Vânia ainda estava a aprender. E todos os freelancers com quem estávamos a trabalhar naquela altura, cada um deles, à sua maneira, era de um profissionalismo excecional. Uns mais do que outros, mas todos eles com um talento e vontade de fazer a sua arte. Esse gosto pelo que se faz é outra soft skill muito importante nesta indústria. São assets muito relevantes para uma agência como a B16.

E, no meio da intensa produção e quantidade de projetos em curso, a meteorologia adequou-se e a Praia de Faro apresentou-se com altas ondas num dia relativamente banal durante a semana. Lembro-me do João me dizer: estão altas ondas bora surfar! E aquilo era inquestionável para nós. se haviam ondas em Faro, não havia qualquer problema de adiar o trabalho umas 3 ou 4 horas pois sabíamos que a nossa produtividade seria completamente diferente. Viríamos mais descansados. Mais tranquilos. Mais frescos. De “barriga cheia” como costumamos dizer. E foi isso que fizemos. Levantamo-nos cedo e fomos para a praia. Estavam, de facto, altas ondas. Parei o carro junto ao “Zé Maria”. Fumamos uma ou duas picas. Escolhemos o spot onde queríamos ir surfar. Alinhamos ideias e motivamo-nos um ao outro. Era li, naquele pico. Bora! Toca a vestir. Abrimos a mala do carro e começamos a vestir-nos para entrar. Tiramos cada um a sua roupa, separámos os pés-de-pato para aqui, metemos wax nas pranchas, vestimos os fatos…

… e enquanto vestíamos o fato e olhávamos para o mar, o João Costa diz-me:

– Puto, estava mesmo a precisar disto. Ando bué cansado, sabes?
– Eu sei João. Estamos a um ritmo alucinante. Nunca tivemos assim. Precisamos mesmo de parar. Isto faz-nos bem. – respondia eu.
– Sim, mas não estás a perceber…
– Então João? Que se passa? – retorqui.
– Preciso de parar. Estou exausto…
– …
– A partir de sexta-feira já não contes comigo, ok?!
– …
Ya. Vou parar um tempo. Preciso de descansar. Quero sair daqui uns tempos. Acalmar.
– …

Boquiaberto, indignado, surpreendido, inesperadamente atónito, acreditei que aquilo era um desabafo do momento e que estávamos prestes a entrar dentro de água e que, dali a uns minutos ou horas, aquilo iria passar. Pensava eu.

Mas eu estava enganado. Redondamente enganado.

Fechamos o carro. Fomos para a areia e sentamo-nos à beira mar enquanto calçávamos os pés-de-pato e metíamos o shop da prancha no braço. Entramos na água e fizemos o nosso caminho até ao outside. Estava “um metrinho” – como costumamos dizer. Levamos com alguns sets no lombo e refrescámos as ideias. Muitos bicos de pato depois, encontramo-nos no outside. Esperávamos pelo set para cada um começar a sua terapia da natureza. E, naquele momento:

– Mas João, aquilo que estavas a dizer ali no carro, eu não percebi muito bem…
– É isso Bruno. A partir de sexta não venho. Estou exausto…
– Mas temos bué vídeos para entregar… 
– Não dá man. Não consigo. É mesmo assim.

Desde o início da minha jornada com o João Costa, de 2016 até aquele momento, houve sempre momentos em que o João estava desmotivado, triste ou a precisar de atenção. Recordo-me de ter falado imensas vezes com ele sobre este ou aquele projeto; sobre o rumo da empresa, sobre acreditar; sobre a nossa ambição enquanto profissionais, enquanto pessoas. Havia alturas em que era deveras desgastante. Intenso. Exaustivo. E eu, em todas elas, sabia que a única solução era o João. Por todas as razões e mais alguma. Era ele que sabia como fazer. Era ele que tinha a visão final. Era ele que conhecia o produto que íamos entregar. Nesta manhã dentro de água e nos dias que se seguiram aprendi uma das maiores lições que a B16 me deu até hoje. De forma curta e direta, tem a ver com a responsabilidade que atribuo e à forma como fico refém de um determinado recurso humano. Foi duro. Foi muito duro.

Passamos um bom tempo dentro de água. Surfámos altas ondas. Não sei o que fizemos, se manobras, se tubos, se nada. Mas curtimos. Curtimos muito. Tentei evitar a conversa durante algum tempo. Tentei estar ao lado dele e celebrar aquele momento na sua companhia. Usufruir de um momento de lazer só nosso. O mar estava épico. O tempo também. Um daqueles dias que a Praia de Faro oferece no inverno, como se fosse verão – e com ondas! Quando saímos, voltamos para o carro, despimos os fatos e vestimo-nos, arrumamos o material e fumamos mais uma ou duas picas. Lembro-me de ter insistido com o João, de forma leve e sensível, sobre a sua decisão e o que isso iria implicar na B16. Ele compreendeu, mas fez-me perceber o seu ponto de vista. E eu não consegui naquele momento assimilar por completo o que ele me estava a transmitir. Eu estava confuso. Estava em negação.

A seguir à surfada fomos para o escritório. Foi difícil. Começamos a contabilizar o que era possível editar do que estava escrito no quadro. O que seria possível fazer até sexta-feira, o dia em que o João se ia embora. Foi abrupto. Senti-me absolutamente cortado na barriga, furado nos braços, amputado nas pernas. Estava totalmente dependente do João e não sabia como sair daquele buraco fundo, escuro e sem luz.

Delineamos um plano, decidimos por este ao invés daquele, preferimos isto ao invés daquilo, optamos por fazer aquele vídeo ao invés de outros. E depois haviam projetos que precisavam de tanto tempo de edição que seria impossível ser o João a fazê-los.

Tentei de todas as formas convencê-lo a terminar o que estava pendente. Não me recordo bem, mas na minha mente é o que sinto. Sinto que tentei oferecer mais dinheiro, oferecer mais tempo, estender no calendário, sacrificar-me com os Clientes, sem saber se estes iriam aceitar os prazos de entrega que eu tinha intenção de alterar. Tentei. Eu tentei. Mas ele não queria vir trabalhar mais. Estava decidido. Depois dessa sexta-feira, dali a 2 ou 3 dias, não havia mais João Costa.

Lembro-me de não saber lidar com essa situação muito bem.
Tornei-me explosivo. Irritado. Insuportável.
Não voltei a beber. Mas fumei muito.
Muito.

Sentia-me como no final de uma relação amorosa com alguém de quem gostamos muito.
De coração partido.
Desiludido. Incompreendido. Revoltado.
De coração partido.

Levei alguns dias a assimilar o prejuízo.
O dia da surfada deve ter sido uma terça ou uma quarta-feira. Não era segunda, certamente.
Orquestrei uma solução que acordei com o João para que ninguém ficasse ferido ou para que a nossa relação não ficasse prejudicada.

A sensação de uma relação amorosa que acaba com alguém a dizer: “Vamos ficar amigos?”.
Sim. Exato. É mesmo comigo.
Menos.

A Vânia não estava tão presente.
O João não vinha depois de sexta-feira.
Os Clientes já me tinham pago os trabalhos. Tinha de contratar freelancers para editar os conteúdos. Com dinheiro que não tinha.
Nem sabia onde estavam os brutos. Nem os áudios.
Fodeu.

Recordo aqui o paralelismo das milenas de distância que tenho feito ao longo das minhas histórias. E com esta informação do João Costa (este pickle que tive de resolver), há aqui uma aprendizagem que vale mil quilómetros certamente. A somar ao percurso percorrido, já vamos em seis mil quilómetros de distância. A sua saída foi, sem dúvida alguma, um momento em que aprendi imenso na B16. Aprendi a não dar tanta responsabilidade aos nossos colaboradores em formato freelancer, aprendi a não delegar tanta dependência ou a balizá-la com contratos sérios e legalmente protegidos. Recursos Humanos é a área mais difícil de gestão de uma empresa. E para mim, que sou sócio-gerente de uma nano-empresa, apesar de já ter implementado Sistemas de Gestão de Qualidade e Sistemas Funcionais de Cultura Organizacional; apesar de já ter ajudado a desenhar Organogramas, Procedimentos, Processos, Descrições de Funções (com ou sem softwares tecnológicos associados); apesar de já ter lidado com miríades de ferramentas que ajudam a melhor gerir e a otimizar os fluxos de interação dos colaboradores em empresas de diversos tipos de escala; tenho a certeza, depois de mais de 20 anos a trabalhar nesta área, que a máxima “não há pessoas insubstituíveis” não é verdade. Não é. Quando falamos de pequenas empresas e de colaboradores de Classe A, as pessoas são, de facto, insubstituíveis. E o João Costa foi um colaborador de Classe A, insubstituível na B16. A lição foi dura. A ferida curou. A solução apareceu. Nos próximos capítulos abordarei esse caminho. Mas neste momento que a B16 atravessava, a saída do João foi como uma relação amorosa que terminou. Com 22 vídeos por editar.

Imagem gerada por ChatGPT

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