2019 está repleto de histórias. Ainda há espaço para dois grandes marcos da B16 que merecem o seu próprio capítulo: a primeira mudança de instalações e o único assunto profissional não resolvido na minha cabeça até aos dias de hoje (2026).
Um ano recheado de aventuras, marcos, episódios, situações e muitas complexidades que me fizeram crescer. Umas mais fáceis do que outras, mas, na sua maioria, difíceis. Já tive oportunidade de referi-las de forma individualizada. Já tive oportunidade de tecer os meus comentários e referir emocionalmente o que mais me marcou. Entre vitórias, trabalhos de sucesso, relações duradouras e muitos confettis, a verdade é que ser empresário não é fácil. Tem os seus momentos. E há momentos em que nos apetece desistir de tudo.
Antes de partilhar o primeiro desses momentos em que me apeteceu desistir, quero destacar dois projetos que nos ajudaram a definir ainda melhores relações com dois Clientes em particular: o Designer Outlet Algarve e o lançamento de um website para um dos Clientes da Visualforma, a Câmara Municipal de Alenquer.
Foi neste ano que a Célia Meira, ex-diretora de marketing do DOA, nos convidou a produzir um vídeo em formato Point of View (POV), algo tendencial naquela altura nas redes sociais e que merecia a nossa atenção. A Célia ligou-nos a explicar o que pretendia e o que tinha do seu lado. Quero um vídeo assim, com este tipo de movimentos, este tipo de referências, esta pessoa como modelo e este estilo de música. Assim que recebemos o briefing, o Costa percebeu imediatamente o que era para fazer. Agendamos a data de produção e recordo-me, inclusive, que me perguntou se eu não queria ficar no escritório; que ele tratava do assunto sem precisar de ajuda. Eu, desconfiado que sou, quis ir. Quis estar presente. Quis ver. Foi naquele período em que o João estava, mas não estava. Em que fazia trabalhos pontuais de freelancing. Fui. Cheguei. Vi quem era. Percebi o que era para fazer. E, confesso, nunca imaginei que conseguíssemos produzir este vídeo em tão curto espaço de tempo. Não quero exagerar, mas acho que o produzimos em 2 horas. É como costumo dizer: os resultados finais estão na cabeça de quem filma. E quando é assim, tudo é mais simples, prático e fácil de executar. A Ema foi uma porreira. E há pessoas que têm jeito, ponto final. Gosto muito deste vídeo.
O segundo projeto foi um desafio do Pedro Constantino da Visualforma e que consistia na produção integral dos conteúdos de texto, fotografia e vídeo que iriam constar no novo Portal do Município de Alenquer. Fomos nós quem definiu o site map de todo o projeto. A base de todo o trabalho. Só depois de ler muito material, de investigar, de questionar, de procurar referências em municípios semelhantes, nos foi possível idealizar um resultado final. Recorri a uma equipa multidisciplinar composta por uma jornalista, um fotógrafo e um videógrafo. E o plano foi simples: fomos até Alenquer conhecer o concelho. Dormimos, comemos, passeámos, visitámos, conhecemos, divertimo-nos, falámos com pessoas aleatoriamente e, no final, preparámos um documento com todo o tipo de approach intencional da nossa parte. O Cliente concordou e avançámos para a produção efetiva. Fomos lá propositadamente para que nada falhasse. Convivemos naquela área geográfica. Convivemos com os habitantes. Experienciámos as paisagens, os produtos, os ex-líbris, os monumentos, as atrações. Ficámos fãs do concelho e, sobretudo, eu adorei fazer este trabalho de campo. Foi um verdadeiro prazer desconstruir os serviços de uma câmara municipal e reagrupá-los numa perspetiva de quem visita o lugar, numa perspetiva de fora. Deu-nos uma liberdade sem paralelo. E a aceitação não poderia ter sido melhor. Deixo-vos com um “cheirinho” daquilo que produzimos para a CMA:




Mas, como disse anteriormente, o presente capítulo é pautado por uma história que me dá vontade boa e algum remorso em simultâneo ao partilhar. Tenho mixed feelings quando me lembro deste assunto. Por diversos motivos. Mas passo a explicar.
A empresa estava a crescer e eu queria comprar um escritório. Sempre achei preferível pagar uma renda de algo que será nosso um dia do que estar a arrendar a outrem. Ainda hoje penso igual. E, naquela altura, conforme tive oportunidade de referir num dos capítulos do presente livro, foi o José Dias quem me facilitou a possibilidade de ter o escritório da B16 na baixa de Faro. Por esta altura o José já cá não estava. Faleceu, entretanto, como também já referi. Alvo da doença que nos leva a quase todos, de forma fulminante e bastante rápida. Mas o José tem irmãos, o Ângelo e a Olívia, e ambos mantêm o património familiar e fazem a gestão dos seus diversos imóveis. Foi num momento como esse que referi ao seu irmão, o Ângelo, que estava à procura de um espaço ligeiramente maior, mas para comprar. E foram-me apresentadas duas alternativas: alugar o espaço por cima do nosso por um valor simbólico ou ver um escritório que ele próprio tinha à venda não muito longe dali.
Vi ambos. O primeiro precisava de obras, ficava mesmo por cima do nosso mas era parte da mesma solução de aluguer que eu estava a tentar evitar; o segundo foi impactante, por sinal. Era amplo, tinha uma vista fantástica e era mesmo no centro da cidade. Fiquei empolgadíssimo e radiante com a possibilidade de poder adquirir um imóvel de serviços para a B16. Falei com os bancos e era impossível. Os números e anos de existência da B16 não me davam qualquer credibilidade junto à banca. O escritório era bastante barato (60 mil euros) mas a B16 tinha uma faturação e um histórico bastante pobre junto da banca. A maioria disse que não e os bancos que me apresentaram proposta pediam-me mundos e fundos, com condições horrendas que eu não conseguiria suportar. Fiquei triste, na altura. Mas recompus-me e, para não perder a oportunidade, falei com o meu amigo Cláudio Martins. Expliquei-lhe a situação e disse-lhe, inclusivamente, que se não fosse para mim, que era uma oportunidade a não perder. Ele mostrou-se interessado e veio ver o escritório comigo. Quis ficar com ele. Fui todo contente falar com o Ângelo e disse-lhe que tinha um comprador para o escritório. Avançámos com todas as diligências e preparámos o processo de venda em conjunto. Combinámos que o valor seria inflacionado por 10 rendas minhas, e assim eu ganharia esse tempo sem pagá-las, desconto esse oriundo da venda ao meu amigo. Tudo de forma transparente e honesta. Foi o que aconteceu. Fizeram a escritura e eu deixei de pagar rendas daí em diante. Todavia, qual não foi o meu espanto quando, certo dia, o Ângelo me bate à porta e me pergunta pelas rendas dos dois meses em atraso que não tinham sido pagas. Indignado disse-lhe: então o que foi que combinámos? Ao que ele respondeu: não sei, não me lembro. Vamos ali ao meu escritório falar sobre isto, ok? Parei o que estava a fazer e desci até ao seu gabinete, dentro da pastelaria. Sentei-me e ouvi o que ele tinha para me dizer. Fiquei boquiaberto, estupefacto, moribundo pela falta de lealdade, seriedade, palavra e carácter. Disse-me que o valor que eu cobrara a mais na venda daria para 3 rendas “grátis”, nada mais. Mais uma lição inesquecível. São assim que elas surgem. Tipo soco. Tipo facada. Tipo rasteira. Não temos hipóteses. Já foi. Agora é aguentar. Aceitei a sua decisão depois de tentar ripostar e perceber que não tinha qualquer hipótese. Nada ficara escrito entre as partes e ele preferiu deixar claro que não se importava com a falta de verdade. Mentiu. Com todos os dentes da sua boca. E, se por algum motivo achou que não, também eu não quero saber. Ambos sabemos o que aconteceu. E isso basta-me.
Se há coisa que valorizo na vida é a palavra.
E um Homem que não tem palavra, perde a maiúscula.
Fica homem; homem sem palavra.
Homenzinho. Independentemente do tamanho.
Saí do seu gabinete e fui para a minha secretária. Imediatamente redigi uma carta a manifestar a minha vontade de terminar o contrato de arrendamento tendo, para isso, que cumprir o período de 3 meses de aviso prévio do contrato. Ou seja, fui obrigado a pagar rendas, mesmo depois de todo o processo. Acho que ainda paguei uma ou duas, não me lembro. Mas a verdade é que redigi a carta, imprimi duas cópias, desci novamente e entrei-lhe pelo gabinete a dentro sem avisar. Estendi-lhe ambas as cartas e pedi-lhe que me devolvesse uma delas assinada. Tentou conversar comigo e eu não lhe disse absolutamente mais nada. Vim com a minha carta na mão, tirei uma fotocópia que guardei e fui aos correios enviar a original em carta registada com aviso de receção. Nesse mesmo dia comecei a arrumar as coisas em caixas. Passou a ser a minha prioridade: arrumar as coisas, retirar tudo e devolver o espaço conforme o encontrei. Foram dias (não sei se chegou a uma semana). Foi muito rápido mesmo. Peguei em tudo o que tinha e levei para a garagem do meu pai, com o objetivo de fazer do seu estúdio o novo escritório da B16. Pintei, limpei e deixei o escritório como uma luva. Custou-me horrores ter de pintar por cima do graffiti do Francisco Camilo. Custou-me horrores ter de tirar os vinis das janelas. Custou-me horrores ter de tapar os buracos onde estavam os quadros, as prateleiras, as recordações que faziam daquele espaço algo original e 100% da B16. Mas a vida é isto. São momentos. E aquele lugar deixou de ser nosso. Virei a página. Terminou. Nunca mais quis saber do Ângelo, nem do escritório, nem da rua, nem do lugar. A única coisa que me custou de verdade foi deixar de privar com a esposa do José. A Mirja. Uma pessoa linda e maravilhosa. Sempre que a vejo, abraço-a e brilho dos olhos. É uma pessoa como há poucas. Semanas depois já estava a trabalhar no novo escritório da B16: o estúdio da casa do meu pai, na Atalaia. Um espaço muito pequeno, com vista para o mar, com muita arrumação, mas onde os móveis se encavalitavam e onde os quadros ficavam no chão. Sempre vi aquele lugar como algo transitório e passageiro. Mas não imaginei como seria, na verdade.
A mudança de escritório não estava prevista, mas, olhando para trás, foi inevitável. E foi para melhor. A B16 tinha um futuro totalmente diferente pela frente. Não era ali. Não podia ser. Nunca imaginei que fosse assim. E o novo lugar trouxe-me familiaridade passageira. Tinha sido a casa onde vivi durante muitos anos. E o estúdio era agora o meu local de trabalho. Foi um momento interessante. A mudança de instalações é algo que encaro hoje como uma necessidade de tempos em tempos. É como construir um website para o nosso negócio. Assim que o estamos a colocar on-line, devemos obrigatoriamente pensar no próximo. De dois em dois anos, de três em três, de quatro em quatro. Mais do que isso, a mudança não é tão grande. Fica por acontecer. E ali, naquele momento, naquele final de 2019, aconteceu de facto. Mas não sem antes testarmos um trabalho naquele estúdio por ocupar. Foi ainda com o estúdio vazio que produzimos o tal assunto de que falei no início e que ainda hoje subsiste na minha mente. E é sobre esse tema que o próximo capítulo fala.