No final de 2020 recebo um telefonema que transformou tudo para melhor. Muito melhor. Foi o Cláudio Martins. Telefonou-me a perguntar se eu estaria interessado em trabalhar para uma empresa que queria iniciar um negócio de entrega de produtos ao domicílio em plena pandemia. Precisavam de tudo: marca, publicidade, merchandising, website, redes sociais, comunicação, entre outros que ele não sabia descriminar. Eu disse-lhe que sim.
Em criança, quando eu tinha 13 ou 14 anos, passava os meus sábados de manhã a lavar vidros de carros nos semáforos da “Casa Helena”. Fiz muitos escudos, com muito trabalho. Comprei uma capa para o material de bodyboard da Lightning Bolt. Nessa capa eu levava a prancha, o fato, a toalha, os pés-de-pato, o lanche e os meus pertences. Era mais fácil apanhar o autocarro dessa forma. Tudo no mesmo lugar. Lembro-me de sentir um orgulho interno, muito meu, com o meu trabalho. Comecei ali, naquela altura, a perceber que com trabalho conseguimos alcançar os nossos objetivos. Alguns deles, pelo menos. Foi uma sensação muito boa. E por essa altura, mais ano menos ano, também me recordo de um episódio único na minha vida. Não sou jogador. Nunca fui. Acho que os meus pais me educaram a ter receio do jogo. Do perigo que é entrar nesse ciclo vicioso de achar que vamos ganhar, de forma fácil, colocando tudo em causa. Perder ou ganhar, são resultados muito distintos. E tenho também muito orgulho em não me ter nunca viciado em jogo. Mas, conforme referi, aconteceu-me um episódio único, que jamais se repetiu. Numa das nossas idas a Espanha em família, eu, meu irmão e nossos pais, num café ou restaurante, era comum jogarmos naquelas máquinas que dão dinheiro, muito características desse país. Creio que na altura era com moedas de 50 escudos. Tanto eu como o meu irmão metíamos duas ou três, o nosso limite, e tentávamos a nossa sorte. Foi num desses momentos que eu cheguei a ganhar 13 contos, com uma moeda de 50 escudos. Treze contos são treze mil escudos. O equivalente a 65 cinco euros, à data de hoje. Mas naquela altura era uma fortuna. Era mesmo muito dinheiro. Lembro-me de fazer uma festa. Uma gritaria. Sentir que, do nada, eu tinha ganho uma “fortuna”. E com esse dinheiro comprei qualquer coisa que, em comparação, me teria levado muitos sábados a limpar vidros de carros. Coloquei muita coisa em perspetiva nessa altura.
O telefonema do Cláudio foi como se a máquina de jogos tivesse feito barulho e as moedas tivessem chovido pelo tabuleiro até ao chão. Foi uma dádiva absoluta, sem que eu percebesse o que estava a acontecer.
Nessa altura do ano, embora a B16 tivesse a operar de forma crescente, com o Nuno e com o João haviam mais despesas mensais. Os nossos Clientes pagam, por norma, a 30 dias. É preciso semear para depois colher. E eu recordo-me de durante algum tempo eu não auferir qualquer salário. Era a empresa e os seus custos primeiro e, se não sobrasse para mim, eu não tirava salário para mim. Isso aconteceu durante alguns meses. Vários. Para que não nos faltasse dinheiro em casa tive de vender mobília no Marketplace do Facebook. Fiz várias fotografias, falei com algumas pessoas e fui amealhando uns euros aqui e outros ali. Continua a ser uma boa forma de angariar liquidez. E há momentos em que o processo é mesmo assim. Não há, não há. Mas, o futuro era belo. Eu é que não o sabia. E em nenhum momento, mesmo de mão partida, senti que a B16 ia ruir. Pelo contrário, era uma espécie de missão de sobrevivência misturada com orgulho. Tinha de dar certo. Eu sabia-o. Mas, vamos com calma. Uma coisa de cada vez.
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O Cláudio fez-me esse telefonema e depois passou o meu contacto para uma pessoa que me ligou de seguida. Nesse primeiro telefonema houve um questionário de perguntas que se focavam, sobretudo, em tentar perceber o que fazíamos com o MAR Shopping Algarve; há quanto tempo trabalhávamos com eles; que outros Clientes tínhamos; quais as nossas capacidades técnicas; etc. Fui respondendo a cada uma delas, com calma e tranquilidade, dentro do meu carro, parado numa berma da estrada, algures.
Essa mesma pessoa com quem falei ao telefone e que, mais tarde percebi tratar-se do responsável legal dentro da empresa, marcou para esse mesmo dia uma conversa ao final da tarde. Se o telefonema do Cláudio ocorrera de manhã, esta reunião teria lugar umas horas mais tarde, sem qualquer planeamento ou antecipação.
Já trabalhei noutros países, para grandes empresas, com outro ritmo. Em Portugal temos muito o hábito de agendar encontros, conversas e reuniões para mais tarde. Da minha experiência, quem faz as coisas acontecer, não tem tempo a perder. É agora. Se não é de uma forma, será de outra, mas é agora. Foi o que senti no telefonema que recebi e foi essa urgência que me fez parar e focar nessa oportunidade que se me deparava naquele momento.
Eu tinha coisas para fazer nesse dia. Já não me lembro de quais, de quantas, para quem, com quem, mas sei que tinha. Acomodei as responsabilidades e prioridades no horário do dia. Fui a casa tomar um banho, vestir um blazer e preparar-me para essa conversa. O local de encontro ainda era afastado de Faro. Ainda tinha a deslocação. Preparei-me e fui em rumo ao meu destino.
Recordo-me de termos combinado uma hora certa. Não me lembro exatamente qual, mas vou adivinhar que às 17h00, talvez. E às 16h58 eu recebo um telefonema a perguntar onde é que eu estava. Que estaria atrasado. Fiquei boquiaberto e um pouco em pânico. Mas como estava bem pertinho, cheguei ao local uns 3 ou 4 minutos depois. Foi tenso, mas percebi nesse preciso momento quão importante são as pontualidades, palavras, compromissos para este possível Cliente. Cheguei, estacionei o carro, sai e fui recebido por uma senhora que me levou ao gabinete principal da empresa. Assim que cheguei, caiu-me a ficha.
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Fui apresentado ao Diretor Geral do projeto, o Senhor X. Este senhor levou-me para o gabinete do Senhor Y, o investidor, sócio-gerente, dono de tudo o que ali se passava. Ambos de nacionalidade estrangeira, mais precisamente, de um país a leste da europa que não importa agora. O que importa é que só comunicávamos em inglês. Entrei no gabinete onde havia uma secretária e duas poltronas em pele. Dois sofás grandes, onde me enterrei profundamente, sem qualquer forma de me posicionar à defensiva. Era obrigatório entrar pelo sofá adentro. Ser engolido pelo mesmo. Tal era o seu tamanho. Cumprimentei ambos, mas só o Senhor X me fez perguntas. Fui respondendo atentamente, com respeito e sem qualquer tipo de nervosismo. Estava seguro. Eram sobre mim, sobre a minha experiência profissional, sobre o meu passado, sobre o meu presente e sobre o meu futuro enquanto responsável pela B16. Fui respondendo a todas elas. Umas sobre isto, outras sobre aquilo: há quantos anos trabalhas com o MAR Shopping Algarve? Que tipo de serviços prestas para eles? Já alguma vez trabalhaste com retalho? Com que marcas já estiveste envolvido na tua vida? O que fazias antes de teres esta empresa? Tens mulher? Filhos? O que pretendes fazer no futuro? Entre muitas outras questões que me foram levando para um “torcicolo” involuntário, uma vez que estava afundado numa poltrona maior que eu e que o Senhor X estava exatamente 90º à minha direita. Sempre em inglês. O meu complexo e elaborado, o dele simples e pausado. Fui respondendo. Até que, de repente, o Senhor Y nos interrompe e diz num inglês americano perfeito: “ok, já ouvi o suficiente. Estou convencido. Nós queremos lançar um negócio de entrega de bebidas alcoólicas e outros produtos ao domicílio no início do próximo ano. Temos aproximadamente 45 dias para ter tudo na rua. Precisamos de um parceiro de marketing e comunicação para fazê-lo. Estamos neste momento a terminar as obras no armazém, a constituir equipa, a adquirir viaturas e precisamos urgentemente do branding e de toda a comunicação necessária. O website está a ser desenvolvido noutro país, nós temos acesso 24 horas por dia ao protótipo em desenvolvimento e queremos que nos apresentes uma proposta de investimento que nos permita fazer o que estamos a fazer com vista à implementação do nosso serviço no mercado algarvio. Estás interessado?”. Fiquei boquiaberto com o inglês perfeito, com o à vontade, com a afinidade e, inclusive, senti que podíamos ser amigos. Este sentimento em mim é muito raro, mas acontece. E com o Senhor Y aconteceu. Disse-lhe que tinha algumas questões para melhor acomodar a proposta e o Senhor X respondeu-me com o seguinte: “estou 100% disponível para responder ao que precisares. Amanhã, às 09h00 queremos que nos apresentes a tua estratégia de investimento aqui, novamente”. E, lá está, não fosse a minha experiência do passado, teria ripostado a dizer que precisava de mais tempo, de outro tipo de condições, etc. Mas não. Confirmei. Disse: “sim, confirmado, amanhã cá estarei para vos apresentar a minha solução”. Eles acenaram, despediram-se e assim foi.
No caminho até à B16 vim a pensar em todos os pormenores daquele momento surreal. A caixa dos Cohiba; o anel de ouro; o Lexus à entrada; a quantidade de pessoas a trabalharem num armazém recentemente adquirido; e as poltronas carnívoras onde estivemos sentados.
No caminho até à B16 vim a pensar no quão estranho tinha sido aquele encontro; aquela reunião; aquele pedido de proposta. Em como eu me tinha submetido a duas pessoas que queriam lançar no mercado algarvio um serviço de entrega ao domicílio a partir do nada. O que teria de ser feito para que o mercado, confinado em casa, tivesse acesso a este serviço, de forma simples e cómoda. Que tipo de canais seriam necessários para comunicar? Que tipo de mensagens? Que outros serviços poderiam existir no mercado? Com que cara? Que marca? Que nome?
No caminho até à B16 vim a pensar se eu teria tempo suficiente para apresentar o que me pediram, com qualidade, assertividade, utilidade. Também pensava se haveria qualquer tipo de esperança na adjudicação. Em que é que aquela oportunidade iria dar?
A viagem das Benfarras/ Boliqueime até às Gambelas foi rápida. Cheguei ao escritório e já estava tudo fechado. O Nuno e o João já tinham saído. Entrei, pousei as minhas coisas e fui lá fora fumar um cigarro enquanto pensava no que ia fazer a seguir. Telefonei à Rute e disse-lhe que precisava de trabalhar até tarde. Voltei para o escritório e comecei a minha sessão de brainstorming.
…
Passaram-se mais de 5 horas. Quando dei por mim, estava rodeado de papéis na parede e de uma tabela de excell simples, com a coluna do item ou serviço, periodicidade, custo aproximado e hierarquia de implementação. Fiz tudo. Incluí tudo. Todo o tipo de serviços que considerei relevantes para alavancar o negócio. Uma estratégia completa de marketing mix que incluía diversas formas de atuar em: rádios locais, jornais regionais, revistas relevantes, uma rede completa de mupis e outdoors, publicidade em display de multibancos, banners e posters em locais próprios, diversos tipos de transporte, um pacote completo de marketing digital, com SEO, newsletters, redes sociais, produção de conteúdos, marketing direto one to one, relações públicas, imprensa, promoções, ativações de marca, produção de merchandising, um foco brutal em CRM, entre outras ideias que faziam parte do funil de vendas que desenhei para aquele negócio. Sugeri nomes de fornecedores, de parceiros, de influencers. Sugeri fases de implementação e investimento. Sugeri fases de desenvolvimento. Sugeri equipas, pessoas, necessidades. Fiz um calendário completo. Coloquei tudo numa única folha. Numa única tabela que imprimi em triplicado.
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Tirei fotos ao escritório, apaguei as luzes, fechei as portas à chave e coloquei a mala no carro. Acendi mais um cigarro e tentei lembrar-me de possíveis falhas no meu plano. Não identifiquei nenhuma. Apaguei o cigarro no cinzeiro. Entrei no carro e fui para casa. Quando cheguei a casa troquei algumas palavras com a Rute e senti-me bem com o que tinha feito. Fiquei estatelado a ver um filme, creio.
No dia seguinte, desloquei-me novamente às Benfarras para apresentar a minha ideia. Cheguei 15 minutos antes das 09h00 e foi-me oferecido um café em copo de plástico. Fiquei cá fora a bebê-lo e a fumar um cigarro enquanto ouvia falar idiomas que não percebia. A pouco tempo da hora marcada, o Senhor X vem ter comigo e diz-me num inglês arranhado: “está na hora. vamos entrar”. Assim foi. Entrámos novamente no gabinete do Senhor Y que me cumprimentou e me conduziu para a sala de reuniões. Fechou a porta e sem delongas ou prelúdios me perguntou: “então? Pensaste no que te pedi? O que tens para me apresentar?”. Respondi estendendo as três cópias do meu A4 em cima da mesa, uma para cada um. No final da tabela estava um número. Meio milhão de euros, aproximadamente. Pensei que a primeira pergunta fosse essa. Sobre esse número. Mas não. O silêncio manteve-se. E ambos analisaram ao detalhe a minha tabela sem pronunciarem qualquer palavra que fosse. Uns minutos de silêncio depois, trocaram 3 ou 4 frases entre eles no tal idioma que não compreendo. O Senhor Y perguntou-me: “Esta é a tua estratégia para o nosso negócio? Diz-me em poucas palavras porque escolheste isto e não outra coisa”? Respondi-lhe o melhor que pude. Simples, tranquilo, seguro. Disse-lhe, inclusivamente, que os números poderiam variar de acordo com os preços praticados no momento, com as parcerias estabelecidas, com as possibilidades de negociação devido à pandemia. Qualquer negócio estava a ser vendido mais barato e isso poderia ser uma mais valia, dependendo da nossa capacidade de negociação. Ele levanta-se, dá-me a mão e diz-me: “ok, fiquei esclarecido. Vou pensar”. E fui novamente conduzido ao carro. Antes das 09h30 eu estava a sair do armazém em direção ao escritório. Passei o portão de entrada, liguei a música e acendi mais um cigarro. Enquanto conduzia em direção a Faro, a pensar no que tinha acontecido na reunião, recebo um telefonema de um número que eu não conhecia:
– Bruno? Are you there?
– Yes, who is this?
– It’s Mister X. Welcome on board.
– Sorry, what?
– Welcome on board. We’ve already decided. We want to work with you. What are the next steps?
– Ah… hum… aa…. Mister X, I will send you a formal e-mail right now with the budget, the deadlines and a suggestion of the following steps, is this ok?!
– Yes, ok. Bye.
E assim de repente, a B16 ficou responsável pelo lançamento de um investimento superior a 2 Milhões de Euros na Região Algarvia. Assim de repente, o meu horário passou a ser escasso. Assim de repente, eu não iria conseguir gerir a B16 na sua totalidade, uma vez que tinha este GIGANTE para implementar. Assim de repente, já não precisava de vender mais mobília para comer. Assim de repente… tudo mudou.
Liguei à Rute. Expliquei-lhe o que tinha acontecido por telefone. Ela ficou feliz e desejou-me bom trabalho. Cheguei ao escritório, falei com o Nuno e com o João e expliquei-lhes o que tinha acontecido. Eles ficaram felizes também. Reunimos e tentamos prever o que estava em curso e o que era necessário fazer. O João fica com isto, o Nuno com aquilo, quando precisarem de aqueloutro, digam-me. Bom trabalho. E meti os fones nos ouvidos e deitei mãos à obra. Escrevi o e-mail conforme tinha prometido. Sugiro isto e aquilo. Neste e naqueles dias. Carrego no botão enviar e abro o meu caderno. Começo a escrever, esboçar, desenhar. Comecei a delinear com quem iria trabalhar, como, de que forma. Quais os deadlines, quais as maiores dificuldades, quais os maiores desafios. Estive nisto umas duas horas, totalmente emergido. Quando volto ao computador para fazer “enviar/ receber”, tenho um e-mail na caixa de correio a dizer: Dear Bruno, we agree with everything. Please find attached the service agreement to be signed until the end of the week. Please give us your feedback. E assim se ensina Portugal a trabalhar. Ponto. Qualquer situação destas em Portugal levaria séculos a resolver, fechar, contratualizar, formalizar. Aqui, no espaço de horas, estava resolvido.
Em menos de 24h reuni com o Cliente, recebi um pedido de proposta, desenhei um orçamento, obtive a adjudicação formal e recebi o draft do contrato de trabalho. Incrível.
A “batata quente” estava do meu lado. Imprimi o contrato, li-o de uma ponta à outra, enviei-o para o meu advogado com as minhas notas e a pedir uma conversa urgente. Abri o powerpoint e comecei a desenhar o plano de ação num documento formal. Trabalhei incansavelmente até às 06h00 do dia seguinte. Deitei-me por umas horas e voltei para o escritório. Continuei o plano de ação e agendei para esse mesmo dia uma conversa com o meu advogado na altura. Foi uma conversa simples, rápida, concreta. Acrescenta isto, retira aquilo. Atenção a isto. Tudo ok. Simples. O contrato era justo para todas as partes. Fiz as minhas alterações ao documento, finalizei o plano de ação, produzi a fatura da adjudicação e enviei tudo num e-mail formal de trabalho.
Em menos de 24h respondi com as minhas notas ao contrato de prestação de serviços entre as partes, com o plano de ação e com a fatura de adjudicação. Estava morto de sono, mas livrei-me da “batata“. Lembro-me como se fosse hoje. Era uma missão. Dar tudo o que estava ao meu alcance para impressionar o Cliente. Fui dormir a meio da tarde. Estava morto.
Fui acordado pela Olívia e pela Rute. Era hora de ir jantar. Fomos comer em família e, depois da Olívia estar deitada, fomos fumar um cigarro e conversar um pouco para o quintal. Tínhamos um quintal maravilhoso na nossa casa da Rua Pedro Nunes. Adorávamos estar ali. Mesmo nos dias frios. Já não me lembro do que falámos. Sei que sempre falámos de tudo. É uma das qualidades da nossa relação. Falamos de tudo. Sempre. Quando não falamos é que dá problemas. Mas quando falamos, tudo corre bem. E naquela noite falámos sobre várias coisas. A meio da conversa vejo as horas no telemóvel e o alerta da caixa de correio. Um e-mail por ler. Abro o e-mail e tenho uma resposta do Senhor X ao meu e-mail com o comprovativo da transferência bancária feita no próprio dia e a informação que dois ou três dias depois eu teria de apresentar aquele documento em reunião própria para o efeito. Já não me lembro se houve um fim-de-semana pelo meio, ou algo assim. Não me recordo. Respondi que sim e celebrei com a Rute.
Querias fruta? Chupa!
Incrível.
Profissional.
Dinâmico.
Exemplar.
Quando cheguei à hora marcada, dias depois, o armazém e o local pareciam outros. Brutal. Tudo pintado, renovado, arranjado, fora e dentro. Computadores, mais pessoas, mais gabinetes, prateleiras, linhas, cais de descarga de encomendas, uma panóplia de coisas novas que ali não estavam quando lá tinha ido da primeira vez. Aquilo era sério. Não era nenhuma brincadeira. No lugar do Lexus estava um Ferrari descapotável. Não me lembro do modelo. Nunca percebi muito disso. Vermelhinho, aquele, da marca, mas descapotável, pequenino, lindo. Matrícula portuguesa. Ao lado de outros carros topo de gama, mas de linha abaixo. BMW X5, Mercedes Classe E, entre outros. Inconscientemente envergonhado da minha Dacia, estacionei ao lado de um deles. Recebi o meu café de pontualidade e fiquei a fumar o meu cigarro cá fora, como da última vez. O Senhor X, com o primeiro sorriso que lhe vi na cara, cumprimentou-me empolgado e entusiasmado. Falámos sobre banalidades até eu apagar o meu cigarro e ele convidou-me para entrar. Percebi que havia um respeito diferente. Quando entrei na sala de reuniões, vi uma mesa farta, com 7 pessoas. Fui apresentado a todas elas. Cada uma com a sua responsabilidade: financeiro, legal, compras, tecnologia, recursos humanos e os dois Senhores X e Y que já tinha conhecido na última vez. Depois dos devidos cumprimentos, pediram-me para apresentar o plano de ação que tinha enviado por e-mail. Liguei o meu computador, liguei o cabo HDMI e esperei que desse sinal. O meu computador já era antigo. Velhinho. Já tinha uns bons 8 ou 9 anos. Mas era meu. Tinha-o comprado eu, noutras andanças. Era com ele que trabalhava e gostava muito dele, mas era um pouco lento. Esperámos todos uns minutos até que tudo estivesse operacional. Assim que o documento abriu, apresentei-o com calma e fui respondendo às questões que me colocavam. Depois houve recomendações, notas, necessidades, alertas, vontades, intenções. Apontei tudo ao detalhe. Este assunto é preciso lidar com aquele fornecedor, o outro assunto é preciso envolver aquela pessoa, em relação ao outro assunto não podemos esquecer aquele detalhe, entre miríades e miríades de pormenores. Todos estavam focados no que estava ali a ser preparado e desenvolvido. Fiquei com a sensação de que todos perceberam e apreciaram o plano. Juntamente com todos os inputs, era minha função melhorá-lo e fechá-lo em conformidade. Nessa mesma reunião assinámos presencialmente a cópia dos contratos entre as partes. Cada um ficou com a sua cópia. Apresentaram-me o armazém. Disseram-me como iria funcionar. Senti-me bem e com uma necessidade urgente de trabalhar e apresentar resultados. Foi o que fiz. Fui para a B16 tentar avançar o máximo que podia.
Trabalhei afincadamente com o objetivo de faturar rapidamente. Aquele momento que eu e a B16 atravessávamos era para ser aproveitado e espremido até ao tutano. Com o Nuno e o João focados nas produções do MAR Shopping, Infralobo, Designer Outlet, Nascer Prematuro e conteúdos para a própria B16, eu, estava 100% focado em que todo este trabalho fosse desenvolvido com o maior profissionalismo possível. Com qualidade. Com unicidade. Originalidade. Diferenciação. Era uma oportunidade única. Eu sabia-o.
Falei com o Marcelo Souto por várias vezes. Quase diariamente. Lembro-me de o ter na minha mente muito presente. Precisava dele e da sua magia. Como criar uma marca, uma comunicação, um serviço completo de comunicação para uma empresa de entrega de bebidas alcoólicas em plena pandemia? Como começar? O que fazer? Para que público? Para que camada? De que forma? Falámos sobre tudo. Naquela altura não havia Inteligência Artificial. As coisas eram diferentes. Investigámos, procurámos referências, fizemos um trabalho árduo para saber por onde começar. Precisávamos de entender os hábitos das pessoas: com quem bebem? Como bebem? O que bebem? Em que circunstâncias? Porquê? O que achariam elas de um serviço deste género? Precisávamos de um grupo de foco a quem colocar questões e que nos desse respostas para o caminho a tomar. Depois, delongámo-nos sobre as referências dos estados unidos, austrália e outros países que tinham este tipo de serviço em curso. Encontrámos diversas respostas, mas continuámos com a dúvida da sua implementação e do volume de vendas necessário para encontrar um potencial de negócio interessante. Depois entrámos na parte boa: forma, cor, naming, conceito, visão.
Em paralelo, contactei todos os órgãos de comunicação social, todos os fornecedores, todos os parceiros necessários para a implementação de toda a estratégia definida. Em contacto direto com o Senhor X todos os dias, fui agendando reuniões, sessões de trabalho, formas de resolver este ou aquele pormenor que não estava em conformidade com o plano inicialmente delineado por mim ou com as sugestões recebidas na reunião que tínhamos tido com toda a equipa.
Escrevi centenas de notas. Anotei uma imensidão de pormenores, alertas, necessidades, pontos nevrálgicos, detalhes. Estava 100% focado no projeto. E, de quando em quando, sofríamos as mazelas das regras da pandemia. Numas vezes eu podia ir, noutras falávamos por telefone ou em reuniões online. Estávamos todos focados em tudo. Éramos uma equipa.
Já não me lembro quantos dias tinham passado desde a última reunião em que apresentei o plano. Foram poucos dias. 2,3 ou 4 no máximo. Tudo era feito a um ritmo avassalador e com uma periodicidade diária incrível. Estabelecíamos objetivos de manhã, falávamos perto do almoço e ao final do dia. Não havia brincadeira ali. Era a sério. E quem não cumprisse, era chamado a justificar-se. Lembro-me de quando voltei, uma das pessoas que eu tinha conhecido na minha visita, passados dois ou três, já lá não estava. Não era adequada. Ali estava a fazer-se a sério. Não se brincava. Nesse meu regresso, novamente no ritual do café e do cigarro, já haviam conversas entre todos. Já se contavam anedotas. Já se partilhavam dificuldades. Já se falava em progressos. Já havia um ambiente crescente. Senti-me a fazer parte de uma equipa que, de vez em quando, dialogava no idioma que eu não percebo, mas que fazia questão de me fazer sentir parte da mesma. Entrámos na sala de reuniões. Bom dia. Bem-vindos. E, do nada, um dos colegas estende-me uma caixa de cartão com papel de embrulho. Fiquei perplexo e olhei todos nos olhos. Ouvi risos. Olhei para o Senhor Y. Ele sorriu para mim e disse-me: Next time don’t take too much time connecting it to the television. E… eu… sem perceber, enquanto abria o papel de embrulho, fico boquiaberto com um LENOVO Legion topo de gama, com todos os acessórios necessários e até uma mala de tiracolo. Estava ali uma máquina incrivelmente potente. Um laptop novo, só para mim. De borla. A máquina que ainda hoje utilizo para trabalhar. Há 6 anos, precisamente. Incrível. Fiquei humildemente rendido à magnitude da estrutura. Senti que, se desse tudo o que tivesse ao meu alcance, que seria retribuído e motivado de forma fácil com as capacidades financeiras dos Senhores X e Y. Foi uma forma de me agradecerem o envolvimento até ali. Brutal. Tinham-me literalmente na mão. Fui completamente possuído de forma psicológica naquele gesto de aceitar a máquina. Mas aceitei. Sorri. Agradeci. E ainda hoje estou brutalmente grato pelo gesto e pela consideração. Acho que foi uma interação entre todos bastante profícua. Voltámos ao trabalho e, mais uma vez, sempre no caminho certo. Todos agradados com o que iam vendo. Sempre muito atentos e motivados. Com questões, sugestões, ideias, vontades de acrescentar valor. Adorei esta fase, com este Cliente.
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A relação da B16 com este Cliente era dividida em três grandes fases: a primeira na definição do negócio, da estratégia, do seu posicionamento, na sua comunicação e em toda a sua componente de marketing; a segunda na execução da marca e do conceito visual; e a terceira, numa avença fixa de 12 meses que visava a implementação de toda a estratégia previamente definida. No espaço de duas semanas já estávamos debruçados sobre a segunda fase – um momento que, normalmente, nos leva 2 a 3 meses a desenvolver e apresentar na íntegra. Ali estávamos a fazê-lo em tempo record. Tínhamos de apresentar uma solução até ao final do ano, antes do início de 2021. Era super importante. E foi o que fizemos.
Negociámos suportes, valores, objetos, quantidades, itens. Ganhámos imenso dinheiro nesse processo de negociação. Todos. O Cliente porque pagou MUITO menos do que estava previsto e a B16 porque ganhava uma comissão com todas as vendas realizadas. Lembro-me de comprarmos mais outdoors, por mais tempo, em mais áreas geográficas, por metade do preço. Ali comprava-se ao bolo. O desconto era em grande. E isso aconteceu com tudo. Com as camisolas, coletes, blocos, geleiras, canetas, sacos. Táxis, autocarros e minibuses. Mupis, multibanco, banners, cartazes. No digital então, multiplicou-se de forma exponencial com a entrada da Dengun. Nas rádios, nos jornais, nas revistas. Em tudo. Foi incrível o processo de angariação de parceiros e de compras. Fizemos imenso em muito pouco tempo. Tenho muito orgulho da minha entrega. E da forma como o Senhor X colaborava comigo. Fizemos uma dupla brutal. Eu pré-negociava, ele “matava”. Bons tempos.
A única situação que pelo meio foi dando que falar foi a própria plataforma online. Quer o website quer a aplicação. Ambos estavam atrasados em relação ao timing inicialmente previsto para o seu lançamento. De qualquer forma, nós estávamos focados e aquelas duas ferramentas tecnológicas não eram da nossa responsabilidade.
Os dias foram passando e chegámos a uma conclusão. Já tínhamos desenvolvido um nome, uma marca, um logótipo, um slogan, um racional e um conceito para este novo serviço de entrega de bebidas ao domicílio. Já tinhas mock ups visuais para tudo: outdoors, mupis, website, aplicação, merchandising, publicidade impressa em jornais e revistas, abordagens visuais para o digital, publicidade para os táxis e autocarros. Muita coisa mesmo.
Agendámos uma apresentação para a semana do Natal. Lá fui eu, para os mesmos rituais, para a mesma sala, com as mesmas pessoas. Apresentei tudo. Todos ficaram meio contentes, mas não muito. Senti que tínhamos dado tudo. Eu e o Marcelo tínhamos entregue todas as capacidades técnicas que tínhamos para surpreender aquele Cliente, mas o resultado não foi o que esperávamos. As nossas expectativas deviam estar demasiado altas e foram destruídas por completo com os meios sorrisos, com as reações agridoces, com os deslumbres pouco efusivos. Esperávamos gritos, foguetes, alegria. Talvez fosse uma questão cultural. Pelo meio da apresentação, muito diálogo no tal idioma. E eu sem perceber. Quando terminei a apresentação, o Senhor Y diz-me: Thank you. We will think about it. We will talk soon. Bye.
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Saí das Benfarras com uma sensação de alívio porque iria passar o Natal em família, com calma e a possibilidade de descansar. Fui embora devagarinho. Liguei ao Marcelo por whatsapp que também ficou meio triste. E assim foi. Entrámos no Natal com esse espírito de missão meio cumprida. Essa sensação de não ter atingido o objetivo. Essa sensação de ter ficado a meio.
Mas fui para o meu Natal em família. Maravilhoso por sinal.
No dia 26, sábado, recebo um telefonema a perguntar se posso lá estar na segunda-feira às 09h00. Digo que sim, sem perceber ao que iria. Mas tínhamos um contrato assinado entre as partes e eu não estava em incumprimento. Pelo contrário. Lá fui, na segunda-feira, e quando me sento na cadeira, depois dos tais rituais, desta vez silenciosos, o Senhor Y diz-me: Listen, Bruno, we are not gonna do Saluto. We loved your donkey. Everything is great. But we are not only selling drinks now. We are selling everything. It’s a supermarket now. Online. 24/7 in all the Algarve, with no delivery fee. Soo, please change it to a Super donkey please. And because this is an express service, maybe call it Super Express. Make this quick. We don’t have too much time. E quando olhei para o resto das pessoas, parece que senti um alívio nas suas expressões como quem diz: “Pronto, já não somos os únicos na merda a ter de resolver este problema de espaço em armazém, funcionalidade da operação, novos fornecedores, novos preços, uma lista de itens que vai ser multiplicada por 20 ou 30 vezes os itens inicialmente previstos, o menu de distribuição dos produtos previstos no website e aplicação. Este jovem também tem de se desenvencilhar com o branding todo que tem vindo a desenvolver. Ahahah!”. E acho que todos voltámos à nossa cumplicidade inicial de: “é melhor dares corda aos sapatos ou vais de charola”. Saí dali, totalmente eletrizado. Picado. Sem saber como transmitir a mensagem ao Marcelo que se iria passar da cabeça. Todo um trabalho deitado por terra. Mas se calhar não.
Precavi-me. Liguei ao meu Amigo Eduardo Veríssimo e pedi-lhe indicação de um criativo que me pudesse ajudar a agarrar neste projeto. Foi o dia em que conheci pela primeira vez o Ivo Machado. A quem liguei prontamente, com quem marquei uma reunião de trabalho, a quem enviei tudo o que tinha e com quem estabeleci uma relação que dura até aos dias de hoje.
O Ivo é qualquer coisa. Autista, até. O Ivo Machado é um desses criativos que veio da antiga leva de brutas agências de Lisboa e que é de Albufeira e escolheu habitar na região, por escolha própria. Trabalha com todas ou quase todas as agências da região e de outras zonas do país. O Ivo é um criativo espetacular. Do nada saem-lhe respostas, ideias, soluções absolutamente incríveis. É um profissional do caraças. E eu não sabia trabalhar com ele ainda, naquela altura. Começamos no ponto onde estávamos, com o Marcelo e comigo. Eramos três envolvidos naquela missão. E foi isso que fizemos. Criámos uma equipa que esteve unida desde o início. O Ivo trabalhava com o Marcelo, o Marcelo trabalhava comigo e com o Ivo, eu trabalhava com o Ivo, era um ciclo. Um trio. Muito forte, por sinal.
O presente capítulo fecha 2020.
Um ano muito difícil, como tive oportunidade de referir.
Os próximos capítulos serão sobre um novo ano.
Sobre a segunda metade da História da B16.
Sobre uma época totalmente diferente.
Acho interessante quando oiço alguém a fazer projeções a 2, 3, 4 ou 5 anos; ou mais, até. É incrível como o nosso negócio muda de forma tão abrupta. Tão rápido. Tão para cima e tão para baixo, assim, num ápice.
Em 2020 passei de muito bom a péssimo; de regular a muitíssimo bom; de quase a falir a uma equipa residente de 4 pessoas; do estúdio na casa do meu pai a um escritório na Celfil; de um Cliente fixo, a quase uma dezena de projetos pontuais e a uma avença choruda de um desafio brutal que poderá muito bem ser o primeiro prémio de trabalho da Agência.
O ano de 2020 ainda teve tempo de nos enviar um e-mail a informar que a nossa candidatura ao programa +CO3SO tinha sido aprovada…
O presente capítulo fecha 2020.
Um ano muito difícil, como tive oportunidade de referir.
Os próximos capítulos serão sobre um novo ano.
Onde muitos trabalhos de qualidade foram executados.
Onde estivemos obcecados por burros.
Literalmente.
Onde o curso virou.
Totalmente.