10 anos | Parte IV – Maior que a vida

5 Agosto 2026

Há várias formas de motivação. Há várias formas de fazer mais. Nem sempre são claras para nós. Nem sempre são claras para quem nos rodeia. Já falei sobre este tema e creio que nunca é demais abordá-lo. Oiço a minha intuição. Sempre ouvi. Hoje, mais; e amanhã, certamente, mais ainda. É algo inexplicável. Vem de dentro. Faz sentido. E manifesta-se em pequenas grandes “coisas”. Em assuntos diversos. Em decisões. Em sentimentos. Em crenças. A intuição é o catalisador máximo para a motivação. Motivação intuitiva é algo forte. Exacerbante. Inexplicavelmente valioso. Acrescenta valor e é notoriamente verdadeira. Ao longo da vida tenho sentido esse tipo de emoção, valor e fé em pequenas e grandes situações. Desde uma paixão amorosa avassaladora que todos me aconselham a não perseguir e que, interiormente, sei como verdadeira, real e necessária para a minha existência; até uma vontade enorme de procurar um determinado rumo direcional geográfico e existencial; passando por decisões difíceis dos foros profissional, pessoal ou relacional; decisões com consequências; decisões fáceis; decisões difíceis. Uma lista inacabada de momentos marcantes que se revelam certos ou errados com o decorrer do tempo. Para mim, a minha intuição, motiva-me. Este capítulo fala de como, por vezes, me convenço.

Tenho um feitio de merda no que toca a valores, carácter, honra, compromisso, responsabilidade. Não consigo engolir “sapos”. Montei a cavalo durante muitos anos no Ribatejo, na Fonte Boa: a coudelaria nacional e a estação zootécnica de Portugal. Ali os Homens eram feitos de palavra, espinha dorsal, seriedade. Fico horas a falar disto, se necessário. Os exemplos são incríveis. Histórias inacreditáveis nos dias de hoje para todos aqueles que não sabem o que é a palavra sacrifício. Aprendi muito. Valorizo muito. Mas também isso me estragou para o mundo empresarial, em que é preciso engolir sapos, vergar a coluna, aceitar infantilidades, falta de humildades, sobreposições de pessoas medíocres, burrice, corrupção, egos e superegos, entre outros. Não fosse o meu feitio de merda, já estaria rico ou milionário. Não fosse o meu feitio de merda, não sei se estaria aqui. Não fosse este meu feitio e forma de estar, não sei como, nem com quem, estaria eu neste preciso momento. Porque a verdade é simples: na minha vida, tudo o que não é ético, tudo o que é mentira, tudo o que não é sério, tudo o que é corrupção, tudo o que são falsidades ou atalhos para o sucesso, não são comigo. Não contem comigo. Não consigo. Tenho essa educação do passado, clássica, dos Homens Grandes. Montei a cavalo com o Mestre Pedro Baptista. Se houvesse uma palha numa crina, uma mancha de sujidade, um arreio fora do lugar ou por limpar, um adorno funcional mal colocado, uma falta de educação no pedido para entrar no picadeiro, fosse o que fosse, nesse dia, eu já não tinha direito a montar. Era frio. Consequente. Tinha de estar (e ser) tudo em conformidade com a Arte de Bem Cavalgar à Portuguesa. E quando assim não fosse, a humilhação social era a punição. Traumático, sim; mas formativo, sem dúvida. E isso pautou o meu caminho ao longo desses anos e para o resto da minha vida. Tive vários episódios ao longo do meu percurso em que não verguei, cedi ou aceitei a má formação de outrem. Na Escola Secundária, na Universidade, na Associação Académica, no Teatro Municipal de Faro, em Moçambique, na B16. Vários. E se fosse hoje, faria tudo igual. Orgulho-me de ser como sou. Mas perco imenso com isso. Não tolero telhados de vidro. Não tolero esquemas. Não gosto de dominós empresariais. E por essa razão perco imenso. Mas sou assim. Para o bem e para o mal. Este meu feitio é mau nalgumas situações, mas tem-me ajudado a dormir bem à noite. E tenho orgulho nele. Muito. É este que apregoo aos meus filhos. Que apregoarei no seu futuro.

No início deste manuscrito, já referi parte da minha experiência em Moçambique. Nunca a aprofundei. Não é o lugar. Só esses 4 anos dariam outro livro, talvez maior que este. Mas a verdade é que esse compêndio me tem acompanhado diariamente. É fulminante. Presente. Forte. Inexplicável. Complexo. Dúbio. Duvidoso. Mas faz sentido. E faz sentido porque pela primeira vez na minha vida profissional erigi algo maior que eu. Sonhei, visionei e implementei um projeto maior que a minha existência. Foi tão grande que nunca mais me esqueci dele. Era impossível.

Em 2012, quando cheguei a Moçambique, senti automaticamente uma vontade de construir algo. Naquele ano precisei de tempo para me ambientar, cultivar, misturar, entrosar, descolonizar-me da minha essência. E não foi num ano que o consegui. Foi em 3. Foram precisos 3 anos, em diferentes cargos profissionais, depois de muitos episódios pessoais, depois de muitas viagens, de muitos amigos, de muita vivência, que comecei a perceber o que é isso de ser moçambicano. E a verdade é que o meu sangue mudou de cor. Já o disse diversas vezes. Não me canso de dizê-lo. O meu sangue mudou de cor. Uma expressão que define a verdade e a realidade da minha paixão por Moçambique, por África, pelas suas gentes, costumes, tradições, formas de estar e viver. Tão diferentes do que temos na europa. Tão distintas do lugar e modo de viver em que habitamos. Em 2012 quis construir, mas só em 2015 soube fazê-lo. E foi em 2015, logo em Janeiro, que me sentei com a minha mulher e definimos o caminho desse ano que demorou muito a passar. Em janeiro de 2015 fiz telefonemas, enviei e-mails e reuni com pessoas. Foi o Luís Carvalho quem acreditou, como nós, no projeto Reconstruir Moçambique. Depois do Luís, foi em catadupa. De Janeiro a Março estabeleci contactos, assinei protocolos e contratos, produzi conteúdos, investiguei e estudei lugares, fiz contas, projetei cenários e alavanquei, juntamente com a Rute, um projeto de reconstrução de um jardim de infância no valor de meio milhão de euros. Eu e a Rute, sozinhos. No espaço de 3 meses. 32 parcerias que, per si, edificaram uma reconstrução que marcou para sempre as nossas vidas. Depois, de Abril a Julho, reconstruímos de raiz o projeto do Jardim de Infância. A Escolinha de Inhagóia foi alvo de demolições, construções, reconstruções, edificações, embelezamento, arranjos exteriores, decorações e detalhes que nunca imaginámos serem possíveis. Trabalhávamos, literalmente, das 06h00 às 22h00. Todos os dias. Sábados e domingos, inclusive. Foi uma missão sem paralelo. Ficou-nos para sempre na mente, no espírito, no coração. Quando inaugurámos a escola, depois de 3 meses afastadas, as crianças pagaram todo o sacrifício, trabalho, lágrimas e suor com os seus sorrisos e olhos de espanto. Foi incrível. Inacreditável. Surreal, até. E este projeto, para não perdermos muito mais tempo por aqui, ficou-nos gravado no sangue. É maior que nós. É maior que vós. É maior que qualquer espaço, pessoa ou entidade do mundo desenvolvido. Aquele país do terceiro mundo precisa de amor, condições e detalhes que nada nem ninguém de cá percebe, sabe ou quer mesmo saber. E isso dói. Estamos cá, longe, sem perceber o que se passa lá, naquele lugar…. Onde tanto precisam de nós.

E, enquanto a B16 fazia o seu caminho, no meio de todos os projetos que produzimos e entregamos, surgiam laços, conversas e oportunidades em que, para além do trabalho, emergiam novos assuntos, temas e causas. Sempre que falei do projeto Reconstruir Moçambique a alguém, os meus olhos brilhavam. Acho que ainda brilham. Sempre que expliquei em que consistia, como foi feito, de que forma, o ouvinte mostrou vontade para se envolver, colaborar, ajudar. Qualquer pessoa com quem falei quis que eu voltasse a edificar esse caminho. Talvez eu tivesse sido a pessoa mais relutante em relação a esse tema. Por diversos motivos. Pela minha filha, pela minha mulher, pela minha empresa. Porque estar em África não é fácil. Porque avançar com uma mudança destas, tão abrupta, requer calma, reflexão, ponderação. Não é simples. Pode fazer parte de nós e da nossa intuição, vontade ou espírito de missão, mas naquela altura não tinha tanto a perder como tenho hoje. Essa é a verdade.

A título de exemplo, há precisamente 15 dias atrás da data em que escrevo o presente texto, fui internado e operado de urgência no Hospital Distrital de Faro com uma peritonite grave, oriunda de uma apendicite aguda com perfuração. Ora, escusado será dizer que, se isto tivesse ocorrido em Marracuene, onde nós habitávamos na altura, eu já não estaria a escrever o presente texto. Não teria tido tempo de ir de urgência para um lugar hospitalar que me recebesse e tratasse como tão bem fui tratado e precisei aqui, na minha terra e cidade em que cresci e me fiz homem. Isto é só um exemplo no meio de milhares que posso dar a quem estiver interessado por saber mais. Um exemplo de uma história real, com consequências reais.

Mas, sempre que falei com o João Guerra sobre o Reconstruir Moçambique, ele mostrou interesse, vontade e uma identificação com o projeto como poucas vezes senti desde a sua génese. E o tempo passou. E a tecnologia avançou. E as tendências são outras. E, se naquela altura, em 2015, eu tivesse um João Guerra comigo a relatar e comunicar o projeto diariamente nas redes, certamente – repito, certamente – não estaria onde estou hoje. O nosso rumo teria sido outro. Teríamos chegado onde 2015 não nos levou pela parte menos boa do que aconteceu em 2015 (a edição e produção de conteúdos de vídeo que teve inúmeras peripécias e nunca chegou a bom porto, conforme esperávamos). Se o João Guerra tivesse lá connosco, o Viking teria partido a loiça toda. Teria produzido conteúdos emocionais, teria informado, teria comunicado, teria motivado, agregado e aglomerado um conjunto infindável de seguidores e fãs, teria criado um vasto leque de novas oportunidades e, sinceramente, creio que o projeto não teria terminado por ali. Porque o João Guerra é amor. É humano. É um ser sensível. O Viking do coração doce. E essa doçura traria envolvimento, paixão e motivação. Agregaria valor. Sem quantificação, certamente. 

Foi então em 2019 que, nos tempos livres, fui explicando ao João Guerra como edificámos o projeto. Mostrei-lhe os vídeos brutos que captámos. Mostrei-lhe fotografias, entrevistas, papéis, recordações reais. Mostrei-lhe a roupa com que fiz as obras. Mostrei-lhe a lista de parceiros. O website (que ainda hoje está ativo). Falei-lhe das nossas intenções. Das nossas motivações. E o João sentiu-se parte do projeto e teve vontade de reeditar os conteúdos. De forma proativa. De voltar a pegar nas redes sociais. De postar e perceber que tipo de feedback poderíamos ter ao reabilitar aquela ideia. E, à medida que o João foi produzindo novos vídeos, com outro tipo de música, ritmo e cadência, fomos postando e colocando quantias monetárias para a proliferação pequenas dos vídeos e conteúdos curtos que iam surgindo na linha de montagem e edição da B16.

Confesso que nunca imaginei o retorno. Que fosse ter tanto sucesso. Que houvessem tantas pessoas a gostar, partilhar, comentar. Nunca imaginei que o Reconstruir Moçambique ainda tocasse tantas pessoas. Passaram-se 4 anos, desde 2015. Mas o feedback confundiu-nos e quisemos mais. Falámos sobre o que estava a acontecer. Projetamos ideias para o futuro. E, sem nos apercebermos, já estávamos vinculados a um compromisso para 2020 sem paralelo.

O João Guerra é a pessoa ideal para este projeto. Se algum dia voltar a acontecer, independentemente do que houver, voltarei a convidá-lo para integrar o mesmo. Acho que a motivação, amor, devoção e crença que ele demonstrou, são certamente razões suficientes para ele ser a pessoa certa para isto. Mas não sabemos o que o futuro nos reserva. Não sabemos mesmo. A única coisa que sei, é que o João foi, como nós, um verdadeiro apaixonado pela ideia de ajudar quem realmente precisa.

Em 2019 reavivamos as redes sociais do Reconstruir Moçambique:

Facebook
Youtube
Website

E, em conversa com o Ricardo Flôxo, que também colaborava com a B16 naquele ano, chegámos à conclusão de que tínhamos de produzir algo que acompanhasse o nosso mind set. Já estávamos novamente envolvidos, comprometidos e muito avançados nos contactos. E o amor voltou a surgir. Tudo por causa da nossa filha Olívia e pela necessidade de a sentir orgulhosa pelo que somos e fazemos. Ela deu-nos forças.

O detalhe, a atenção, o pormenor. O João e o Ricardo entregaram-se a este projeto de alma e coração. Creio que todos acreditámos, sinceramente, que no ano seguinte estaríamos em África a trabalhar novamente no Reconstruir Moçambique; a impactar vidas; a decorar lugares de aprendizagem; a reunir patrocinadores, seguidores, influenciadores, ativadores, promotores. Fizemos todos o nosso papel. Entregamo-nos por completo. E eu acreditei como há muito não acreditava. Senti, sinceramente, que a máquina que já estava montada na B16 permitiria alavancar um conjunto de oportunidades únicas. Este trabalho minucioso, detalhado, pormenorizado, criterioso foi, sem dúvida, algo mágico. Inexplicável. Tocante. Contagiante.

No final de 2019 produzimos este vídeo, que muito nos diz, que muito nos emociona:

Só quem lá esteve, sabe.
Só quem lá trabalhou, sente.
Só quem lá viveu, percebe.
Só quem lá experienciou, conhece.
Só quem lá foi alvo (de), entende.

2019 terminou com amor, paixão, união e muita dúvida sobre o caminho a seguir. Ainda hoje sinto que o meu propósito de vida é aquele. Que as escolas moçambicanas gostariam de usufruir do meu empenho. Que o mundo subdesenvolvido precisa de conexão e ajuda do mundo desenvolvido. Que, os meus amigos e familiares gostariam de se associar a uma causa como esta. E quem diz amigos e familiares, nem imagina as oportunidades que o mundo das redes sociais e da internet pode proporcionar para quem, como eu, tem uma agência de comunicação com profissionais excecionais, que sabem catapultar um projeto como este para uma magnitude mundial. Social Media, Crowdfunding, on-line auctions… E tenho contactos. E conheço pessoas. E sei que todos nós, sem exceção, se formos chamados a participar ou a colaborar numa causa como esta, não hesitam, se tiverem confiança em quem lhes pede.E os nossos Clientes. Incrível. Mostrei-lhes o resultado e quiserem envolvimento. Mesmo as grandes marcas. Foi incrível a aceitação.

COLOCAR FOTOGRAFIAS DO PROJETO RECONSTRUIR MOÇAMBIQUE

Passei muito tempo sem fumar picas.

No final de 2019, numa tarde de trabalho, voltei a fumar. Apanhei um estalo de meia noite. Olhei para os objetos do escritório. Desenhei uma visão de futuro. Sem chat gpt fiz um plano de marketing numa tarde. E edifiquei um sonho em formato visual. Cheguei a casa bem tarde. E o resultado, foi este:

No centro – a ver o cenário -, a nossa filha Olívia;
Ao lado, eu, a Rute e o João Guerra;
Atrás de nós, uma equipa de trabalho;
À nossa esquerda, o cientista, o detetive e o homem de negócios;
Por trás de nós, o mágico;
À nossa frente: as crianças moçambicanas;
Atrás delas, a equipa de parceiros, patrocinadores, investidores, crentes num mundo melhor.
O rei mago, o leão, o pirata, o gnomo, o Pieter, o condutor de trator e, até o próprio Pai Natal.
Ao fundo, o Shogun… certo de que o caminho é bem feito.

A pica era boa.
A moca também.
Mas há alguma verdade no meio desta visão.
E foi assim que entrámos em 2020…
Com uma convicção inabalável.

No projeto MAIOR que a vida.

Soubera eu.
Soubéramos nós.
O que o ano seguinte nos traria.

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