10 anos | Parte V – Águia de sangue

28 Agosto 2026

De 2016 a 2019, a B16 foi criando parcerias fortes, estratégicas, duradouras e plurianuais. Fomo-nos focando em rentabilizar as nossas relações de lealdade, segurança, seriedade, honestidade, entrega e compromisso. Os Clientes confiavam-nos desafios cada vez mais complexos e inovadores. Houve uma transição de crescimento oriunda dos resultados de todo o trabalho que fomos desenvolvendo. O ano de 2020 trazia consigo uma estabilidade contratual sem paralelo. Comecei esse ano com a primeira previsão de break even na história da B16. Nunca tal tinha acontecido. Sempre foi uma “corda bamba” sobre um precipício. A “corda bamba” de ser empresário, com a aprendizagem crescente, ano após ano. Foi o primeiro ano em que havia a “certeza” de que iríamos ter lucro, sem contar com todos os trabalhos que poderiam surgir. Mais um vídeo, mais um website, mais uma campanha de social media. Grão a grão, iria ser o melhor ano de sempre da empresa. Os Clientes estavam estabelecidos. Os projetos decididos. Era trabalhar e tudo seria história.

Nesse início de ano, o João e eu éramos o “tico” e o “teco”. Para onde um ia, o outro ia também. Éramos Um. Faziamos acontecer um conjunto de coisas em simultâneo. Foi poderoso. Tenho saudades desta química que tive com ele. Muita. Já falei sobre o João Guerra. Já escrevi sobre ele. O João é uma doçura em corpo de gigante. É um Ragnar Lothbrok com coração de ouro. É um furão desenrascado em simpatia de aluno dos Maristas. Trabalhar com o João é um prazer. E nós trabalhávamos bem os dois. E com outras pessoas. E eu percebi que o João estava focado e entregue à causa B16. Ele sentia a empresa. Ouvíamos o Plutónio para onde quer que fossemos, cantando as músicas, entoando as melodias, replicando os ritmos onde estivéssemos. “Prá parede já!” Ele sabe-o.

Fizemos inúmeros trabalhos para vários Clientes neste início de ano. Vários eventos. Várias ativações. Várias compilações. Muita ação, movimento e coordenação entre equipas. Feira de Chocolate em Loulé, grandes produções no Designer Outlet, a prova de IGP no Estádio do Algarve, consecutivos eventos no MAR, Infralobo e outros. Até para a B16 fizemos coisas. E, se tiver de destacar um dos trabalhos mais interessantes deste momento, destaco, sem dúvida, a ativação que fizemos para o MAR Shopping Algarve no dia dos namorados. Foi uma ideia nossa que executamos na totalidade. Um dia fantástico. Entre Loulé, Olhão e Faro, “raptámos” casais para o dia perfeito. Foi muito fixe:

Em paralelo com todos estes trabalhos, eu continuava a enviar o vídeo do projeto Reconstruir Moçambique a todos os meus contactos, na expectativa de desbloquear o seu reaparecimento. Já tinha, inclusivamente, garantidos suportes e canais de comunicação em todo o Algarve; o envolvimento da sede do Grupo IKEA através do seu departamento mundial de responsabilidade social; a participação individual de algumas pessoas com capacidades financeiras acima da média através de donativos; o interesse de parceiros que nos permitissem desenvolver plataformas tecnológicas adequadas; entre outros. Um deles, o João Amaro, responsável por diversos projetos, também ele empresário, professor, consultor e uma referência para mim no mundo empresarial algarvio, por estar envolvido há décadas nas candidaturas aos fundos europeus destinados a apoiar empresas e iniciativas empresariais da região.

Almocei com o João Amaro no Restaurante Tertúlia Algarvia para falarmos sobre a estratégia de implementação do projeto no curto, médio e longo prazo. Também ele tinha ficado sensibilizado com o conteúdo do vídeo. Também ele se queria envolver e apoiar a causa. Também ele queria participar. E nesse almoço, enquanto falávamos sobre a estratégia tripartida entre a B16 e a formação de duas associações, uma em Portugal e outra em Moçambique, o João Amaro fala-me “daquele assunto” que todos tínhamos ouvido falar nas notícias, mas que eu, simplesmente, não tinha prestado a devida atenção.

Não vejo televisão. Deixei de ver. Não acredito em nada. Fechei-me para o mundo. E isso é preocupante. Já referi isto noutro capítulo. Venho de uma escola da verdade pela verdade, custe o que custar. A comunicação social deixou de ser imparcial. Deixou de haver essa postura. O que me ensinaram na universidade é praticado por poucos ou quase nenhuns. Vejo notícias que são autênticas perdas de tempo. Por isso, o meu cérebro cria defesas. Deixei de ver notícias. E essa informação de que havia pessoas a morrer pelo mundo era, na minha opinião, mais um sensacionalismo do momento. Não liguei muito. Vi imagens, mas sem senti-las. E isso ficou no “ar” em mim…

Só quando o João Amaro verbalizou que “há a possibilidade de fecharem tudo a partir de dia 12 de março” é que a minha mente fez um clique. Perguntei-lhe imediatamente: “Desculpa? Não percebi. Explica lá melhor isso…”. Só aí é que me caiu a ficha. E mesmo assim a minha mente dizia-me “não, Bruno, deixa isso, foca-te na candidatura; no projeto Reconstruir Moçambique; as crianças precisam deste envolvimento; isso é que é importante”. Mas, ao detalhar, o João ia afunilando toda a candidatura para a dependência deste mesmo acontecimento global. Se nada acontecesse em Portugal, tudo estaria bem; mas se acontecesse, então teríamos de desistir de uma vez por todas, pois não sabíamos o que iria acontecer a partir daí…

Ficámos com esse acordo entre ambos: “quinta-feira voltamos a falar”. Eu fiquei de enviar isto e aquilo por e-mail; ele tinha de partilhar este e aquele assunto; e outros detalhes orientados para a candidatura que iríamos preparar. Almoçámos. Paguei a conta. Despedimo-nos e voltei para o trabalho. Já não me recordo do que fiz nesse dia. O que me recordo é que passei a ver notícias à noite. E à hora de almoço. E depois, os canais estavam sempre ligados e, quando dei por mim, já tinha máscaras, luvas, álcool gel no meu carro, no carro da Rute, em casa, nas casas dos meus pais, dos meus sogros, onde quer que fosse. Daí até ao confinamento, foi um ápice. Mas antes de entrarmos no confinamento, nessa mesma semana, recebi três telefonemas seguidos: dois no mesmo dia, outro no dia seguinte. Todos a informar: “Bruno, a situação que todos atravessamos leva-nos a ligar aos nossos fornecedores e a cancelar todas as encomendas previstas até ordens contrárias. Vamos cancelar todos os eventos, conteúdos, produções, a partir de agora. Vamos enviar e-mail, mas antes queríamos que soubesses por telefone.” – foi mais ou menos o mesmo discurso com os três Clientes que me ligaram e que, em menos de 48 horas, deitaram por terra a ideia de que o meu break even estava atingido.

Sou fã da série Vikings. Já a vi mais do que uma vez. As três primeiras temporadas são as que mais gosto, depois disso é muita confusão para a minha cabeça. Num dos episódios da segunda temporada, creio que no sétimo, o Ragnar realiza uma cerimónia para o seu rival, Jarl Borg, intitulada “águia de sangue”. Nessa cerimónia, a frio, o conde Ragnar tenta devolver ao seu adversário o respeito que este lhe merecia, num ritual selvagem, carregado de brutalidade humana, sangue e dor. É hediondo para quem não está preparado. Horrendo. Incrível e chocante. E Ragnar convida o seu filho a assistir para que perceba quão importante é lidar com a honra, com os valores, com o respeito. Para que este entenda a importância da integridade. O próprio rival pede que assim seja. Pois na passagem pela terra, apenas os homens honrados merecem chegar a Valhalla. Para lá chegar, o caminho é obrigatório. Para os mais sensíveis, não recomendo. Os três telefonemas que recebi transformaram-me numa vítima ajoelhada, com as mãos sobre troncos de árvores, prestes a ser esquartejado pelo machado que me iria descascar e mascarar de águia, orientando-me para o destino…

À medida que fui recebendo os telefonemas, fui falando com a minha cara-metade. Se no primeiro telefonema as palavras da Rute eram de encorajamento, no segundo e no terceiro já se ouviam onomatopeias de conformação com um momento difícil, prestes a chegar. E quando isso acontece, é meio caminho andado para algo difícil, penoso e transformador.

No início do ano, eu tinha ido a Eindhoven com a Rute. Só os dois. A nossa Olívia ficou com a minha querida sogrinha Avó Julieta. Por quatro ou cinco dias ficámos hospedados num hotel espetacular, com duas bicicletas só para nós, que nos levaram aos prados do Van Gogh, às ruas da cidade e onde namorámos, sozinhos, conectados e apaixonados, como precisávamos.

Mas, em nenhum momento da minha vida, me senti tão assustado e desamparado (por elas)!

Cada um de nós lidou com a pandemia à sua maneira. Todos temos histórias para contar. Talvez haja histórias em comum. Talvez haja sentimentos semelhantes. Talvez haja pormenores que pensávamos só nossos, mas que acabaram por ser exatamente iguais aos dos nossos amigos, familiares ou conhecidos. Lembro-me de me sentir o Super-Homem quando ia ao supermercado fazer compras; lembro-me de desinfetar todos os sacos, embalagens, produtos com álcool em gel. Até a fruta e os vegetais. Lembro-me de ter um cacho de bananas numa mão e o spray do álcool gel na outra. Lembro-me de tirar a roupa toda para entrar dentro de casa e ir diretamente para o banho mais quente que conseguisse tomar. Lembro-me dos testes infindáveis, seguidos, inconsequentes. Lembro-me de disputar as máscaras mais fixes e duradouras e de ficar frustrado quando só sobravam as banais. Lembro-me de conduzir de luvas. De andar de viseira no MAR Shopping Algarve. Ficava absolutamente assustado sempre que alguém dizia ou comentava que a pessoa X tinha Covid. Era o suficiente para começarmos a contar os dias. Incubação neste dia. Sintomas naqueles. Caraças. E agora? Lembro-me de cortar relações com pessoas por causa disso. Lembro-me das ordens nacionais. Dos confinamentos nacionais, regionais ou locais. Este e aquele concelho podiam, mas os outros não podiam. Lembro-me das autorizações que tinha de levar, dos documentos, da forma de mostrar às autoridades os documentos, pelo vidro, com máscara, sem contacto humano. Lembro-me dessa leva de extraterrestres que nos levou para um mundo relacional sem paralelo. Lembro-me de muitas coisas… Mas a pior memória foi quando eu e o meu irmão tivemos de ligar ao INEM a pedir para internarem o nosso pai em pleno COVID-19…



Vê-lo a chegar às urgências do Hospital.
De ambulância. De maca.
A entrar e…
vê-lo desaparecer nas portas automáticas.
Isso sim. Uma memória que nos rouba o chão…

E foi isto.

Um ano que começa com viagens, sorrisos, alegria, pessoas, o sonho de Reconstruir Moçambique, um ano de estabilidade na empresa que me iria permitir viajar até à África Austral com a certeza de que tudo estava a acontecer em Faro, com o João Guerra; um ano em que eu iria fazer filmagens em Maputo e trazer para depois o Viking editar e metermos online; um ano em que a B16 iria alavancar uma candidatura a um fundo europeu por forma à sua implementação; um ano em que… tudo estava bem e, no espaço de uma semana, PAU! De céu azul à noite escura; de nenúfares na lagoa a deserto sem ar; de mergulho no mar em dia de verão a um dia de inverno de t-shirt encharcada…

O primeiro trimestre de 2020 é um jogo de sinónimos – absolutamente antagónico – que a minha mente não consegue conceber. É contradição pura. Metáforas mortas pela ausência de palavras. Silêncio interrompido pelo ensurdecedor barulho da falta de decibéis. Sonho profundo, pesadelo interminavelmente inconsequente. Ausência de sentido. De sentidos.

Dias, semanas, meses.

Duas coisas que nunca esquecerei:

A primeira: a lealdade do MAR Shopping Algarve!
Nunca cancelaram a avença que tinham connosco para produção de vídeo. Naquele tempo foi transformadora, e ainda hoje tenho um sentimento de entrega, devoção e dívida pelo gesto empresarial que tiveram para com a B16. Inesquecível a hombridade. A confiança. A seriedade. A compreensão de que uma empresa do tamanho da B16, se deixasse de ter esta faturação mínima, mais cedo ou mais tarde, abriria falência. E para quem se recorda da minha história do centro de cópias de 2008, essa imagem gerou o pânico. Pânico esse apaziguado pela relação que se evidenciou fora do comum neste momento único que todos vivemos em 2020. A lealdade do MAR trouxe-nos para outros patamares de produção. Começamos a difusão de vídeos para as pessoas que estavam, como nós, em casa. Vídeos home made. Vídeos amadores. Que cortávamos, reeditávamos, embelezávamos, pós-produzíamos, para que tivessem a melhor qualidade possível neste momento em que todos estávamos a aprender a viver. Vídeos de exercícios em casa (healthy days), vídeos de exercícios com animais de estimação (Woofland), vídeos de receitas de cozinha (chefs), entre outros. E foi num desses momentos que voltámos ao MAR para produzir o serviço de delivery do Chef Guy D’Oré:

Mais tarde, o MAR trouxe-nos de volta às produções intermináveis. Mas este foi um trabalho assustador que nos fez pensar nas novas formas de comunicar, transacionar, comercializar. No novo modelo de posicionamento de uma agência como a B16. No futuro que tínhamos pela frente.

Já referi noutras vezes que nunca imaginei ter uma empresa durante 10 anos. Nunca pensei chegar até aqui. A celebrar. A escrever. A recordar. A registar os altos e baixos desta jornada que ainda não encontrou fim e que, pelos vistos, ainda tem durabilidade na era em que a inteligência artificial se está a instalar em força. Naquela altura, dava medo ver a preocupação nas palavras, nos gestos, nas posturas de todos aqueles que nos rodeavam. E para quem não via televisão, acabámos por ver e não foi pouco. E as histórias assustavam. E o que o mundo contava dizia-nos para termos cuidado. Para nos protegermos. E eu e a minha família vivemos esse medo em conjunto. E a opção que eu tinha naquela altura era reduzir os custos fixos…

A segunda: a decisão de “despedir” o João Guerra!
Um dos momentos mais difíceis que já passei na B16. A maior parte dos momentos difíceis desta primeira década está, de uma forma ou de outra, relacionada com pessoas. Neste caso concreto, a falta de dinheiro para pagar ao João todos os meses. Ter um videógrafo quando não pode filmar, naquela altura, foi assustador. Foi nesta altura que tive de contrair um empréstimo. Havia condições excepcionais para as empresas. Felizmente. Pedi um empréstimo para consolidar o crédito automóvel, a compra do equipamento e para preparar os meses que tinha pela frente até o COVID-19 passar. Mas naquela altura, a entrada de dinheiro era apenas pelo MAR Shopping Algarve e não chegava nem de perto para as despesas mensais. Conversei com o João Guerra e foi a conversa mais difícil que tive. O João ficou desiludido. Triste. Desconsiderado. Surpreendido. Altamente revoltado pela forma como lhe tirei o tapete quando tudo parecia fluir para uma empresa em crescendo. Foi a decisão mais acertada que senti na altura. Sabendo o que sei hoje, arrependo-me muito. Estou certo de que os três ou quatro meses que se seguiram poderiam ter sido passados com a confiança de que tudo iria acabar bem e de que iríamos voltar a trabalhar juntos quando os confinamentos terminassem. Mas naquela altura o sentimento era de medo, de insegurança, de instabilidade. E eu não queria acumular custos que não traziam retorno direto para a empresa. Foi a minha decisão. Falámos. Dissemos coisas um ao outro. E ainda tirámos uma fotografia que ficou. Mas depois disto é difícil esquecer e limpar o que eu fiz. Fui eu que fiz. E foi assim que a minha relação com o Viking, que muito respeito, terminou.

À data de hoje é para mim uma alegria trocar mensagens com o João. Envio-lhe capítulos à medida que os escrevo e recebo o seu feedback com uma consideração sem paralelo. Continuo a sentir uma gratidão enorme por ter vivido o que vivi com ele. Continuo a recordar-me de alguns projetos que nunca perderão a sua identidade. Continuo a ser seu fã e a admirá-lo muito. Mas a vida não é simples. Por vezes fazemos bem, por vezes fazemos mal. Eu fiz desta forma. A minha intenção era a melhor, mas teve consequências. Irreparáveis.

Pausa.
“Respiro fundo e lembro-me da força”.

O cancelamento do projeto Reconstruir Moçambique, a obrigatoriedade de endividar a B16 por falta de liquidez, os três telefonemas que cancelaram todo o plano de atividades do ano e o término da relação com o João Guerra, todos juntos, somam, não um, mas dois mil quilómetros à distância que tem crescido nestes últimos dez anos. Foi um ano único. Psicótico, como já referi. Horrendo e belo. Com consequências sem paralelo. Sem igual. Um ano de inimagináveis proporções. Más. E boas.

Com máscaras.
Álcool gel.
E luvas de látex.

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