Em Coimbra, tive a oportunidade de assistir a uma palestra de um especialista de marketing digital que usava uma metáfora para falar sobre as redes sociais: investir em Social Media é o mesmo que viver numa casa de sonho alugada; pode ser a casa onde vivemos, mas não é nossa. A qualquer momento pode deixar de existir. Não controlamos, tem dono. Somos despejados sem defesa ou opinião. É preciso ter cuidado com os investimentos que nela fazemos.
As redes sociais vivem da informação que carregamos no dia-a-dia. É lá que partilhamos com a nossa comunidade. Muitos, com a expectativa de transformar as suas sementes em algo viral, extraordinário, cobiçado e “gostado” por milhões. Outros, como eu, partilham os seus conteúdos com aquela pequena comunidade de amigos na expectativa, errada, de comunicarem numa única plataforma com o nosso grupo de contactos.
Como já disse anteriormente, sou de 79 e jogava ao berlinde. Passam-se meses em que nada partilho ou digo. Só mesmo quando me apetece muito gritar ao mundo qualquer coisa em específico. E, muitas das vezes, dias, horas ou minutos depois, apago-as sem pensar. De forma séria, faço-o para as marcas com quem trabalho. É diferente. Têm um propósito. Têm números. Têm rácios. Objetivos concretos. Para além do mais, já vou conhecendo melhor o jogo. Vou percebendo melhor a intenção. Mas ficou a lição do especialista.
Junho de 2017 é um mês inesquecível.
De certa forma, relaciona-se com este tema.
Passo a explicar.
Numa consulta de rotina, a Rute é internada no Hospital Distrital de Faro. Falta de líquido amniótico, diziam. Precisamos de mais “águinha” na “piscina” da nossa Olívia. Recebi a notícia perplexo, mas com aquele espírito de guerreiro que o meu pai me ensinou a ter sempre que algum assunto muito sério nos toca. Questões de saúde, sobretudo, é aquele assunto que mais nos destrói se não vestirmos a capa do Clark Kent. E o meu pai ensinou-me bem a vesti-la.
Não me lembro de muitos dos pormenores. Não quero lembrar-me. Prefiro recordar o amor incondicional que eu vivia naquele momento. Apoiar a minha Mulher. Apoiar a Mãe da Olívia. Apoiar a Olívia. Apoiar a Minha “Futura” Primeira Filha.
E assim foi. Internadas.

Visitava-as nas horas possíveis. Sempre com o telemóvel disponível. Sempre perto. Sempre presente. E o meu pensamento estava com elas. Continuava a fazer a “minha vida”, mas era ali que estava a cabeça. Visitei Clientes, trabalhei no escritório, naveguei na internet, escrevi e arrumei e-mails. Tratava do nosso Tofo. Tentava terminar o ninho que não teve assim tanto tempo de preparação como queríamos.
A Rute ficou internada no serviço de obstetrícia durante 12 dias. Haviam rituais que cumpríamos criteriosamente: o lanchinho, os mimos em forma de comida, de roupa, de pertences. Os jogos de entretenimento, uma revista, um filme. E conversa. Muita conversa. Eu, a minha família, a família dela, todos tentámos ampará-la e confortá-la da melhor forma possível demonstrando que tudo estava bem.
Recordo-me que a Rute se sentia bem e que, inclusive, numa sexta-feira esperava vir para casa passar o fim-de-semana. Sentia-se farta de estar no hospital. Sentia-se capaz de sair. Tentámos a alta, mas não conseguimos. O médico não quis. Mantiveram-na internada.
Nessa segunda-feira fui ao hospital com a minha Mãe. Entre os rituais habituais, acho que demos por nós a jogar às cartas, enquanto a Rute fazia um CTG de rotina. E nesse exame, os batimentos do coração da nossa Olívia começaram a diminuir…
Para quem já foi pai, os batimentos do nosso bebé assustam. São imensos. São muitos. Rápidos. Entre 120 e 160 batimentos cardíacos por minuto. E é isso que o CTG mede. A frequência cardíaca do pequenote, neste caso, da minha Princesa.
Os batimentos começaram a descer.
De 160 para 140 e uma máquina a apitar.
De 140 para 120 e uma enfermeira no quarto.
De 120 para 110 e duas enfermeiras no quarto…
Acho que sou eu a dar as cartas?…
De 110 para 100 e três enfermeiras no quarto.
De 100 para 90 e – DE REPENTE! – médica, pessoas, confusão, atiram-nos as malas para o colo e empurram-nos para fora do quarto.
Eu e a minha mãe somos convidados a sair do Serviço de Obstetrícia com urgência…
85 e a Rute é transportada de maca para o bloco operatório por várias pessoas, num grande alarido que pareço ver em câmara lenta, em super slow motion.
Tenho tempo de olhá-la confiantemente, com os meus olhos a sorrir e dizer-lhe: Vai tudo correr bem Meu Amor. “Amo-te. És bué da forte”.
Ela entra, as portas fecham-se e eu deixo de a ver e de ouvir barulho.
Eu e a minha Mãe, anestesiados com o episódio, carregámos no botão do elevador, esperámos, entrámos, descemos e dirigimo-nos ao carro para deixar os pertences que nos atiraram para cima do corpo. Tínhamos tudo preparado para ir para casa, mas acabámos por não ir. O discernimento deixou-nos ir até ao carro aliviar o peso enquanto refletimos sobre o que tinha acontecido.
Super slow motion: pés no chão. Passos apressados. Pobre da minha Mãe não consegue acompanhar e já bufa por todo o lado. O carro não está aqui, está ali; mas se passar por aqui é mais rápido. Não quero saber do trânsito. Não quero saber dos carros. Eles que parem. Sou imparável. Sou indomável. Deixar isto no carro e voltar. Caguei para isto. Porque estou a ir para o carro? Calma Bruno. Clark Kent, lembras-te? Respirar. Espera pela Mãe. Dá-lhe mimo. Ela também está assustada. Caraças. Porra. Merda. Foda-se! Que é isto? Filmes. Cinema. Poltergeist. Chucky. A lista de Schindler. Requiem for a Dream. Pesadelo em Elm Street. Lobisomem Americano em Londres. Até o cabrão do Marley. Que cena! Está aqui o carro. Abre. Atira as coisas sem pensar muito. Fecha. Fechou. Bora regressar.
No caminho até ao carro e de regresso – que não durou mais de 15 minutos – pensei em tudo. Pensei em coisas más. Obscuras. Feias. Tensas. Fodidas. E se a criança deixar de bater o coração? E se a minha Rute tiver alguma complicação? Que poderá acontecer agora?… uma merda. A mente humana não tem como fugir dos pensamentos mais recônditos, abruptos, improváveis. Aconteceu-nos a nós. Não foi aos outros. Foi a nós. E eu amo cinema. E o cinema tem de tudo. E foi nessa caminhada que se me passaram centenas de horas de cinema dramático pelo pensamento…
Sentei-me no banco solitário em frente das portas do bloco operatório. Sozinho. Sem ninguém. Que angústia. A pobre da minha Mãe ficou sozinha lá em baixo. Ainda pior. Ninguém. Não passava ninguém.
Imagens de filmes na cabeça. A minha mente lutava sozinha.
No meio do monólogo silencioso, a médica sai das portas com uma cara séria em direção a mim. Eu olho para o lado sério dela e continuo no meu monólogo silencioso que passa a ter um ritmo ensurdecedor… imparável. Massacrante. Masoquista. Descontrolado. Mas em total silêncio e em viagem interna.
Super Slow Motion.
A médica diz: “É tão linda!”
Super Slow Motion.
“A sua filha!”
…
…
…
Explodem-me lágrimas de alegria sem palavras. Desabo num pranto silencioso deixando assimilar a novidade.
Pergunto: “E a Mãe?”
“Está tudo bem. Está no recobro.”
Sei lá eu o que é o recobro.
Bastou-me o “tudo bem”, para me sentir tranquilo.
E a médica leva-me com ela. Entramos nas portas assustadoras, percorremos o corredor, pessoas vêm ter comigo a sorrir e a tranquilizar-me com palavras lindas sobre a Olívia. Não fixei nenhuma. Eu não sabia para onde estava a caminhar. Não queria ver nada, ninguém, só a minha Mulher.
Passei de super slow motion para velocidade normal, com pálas nos olhos. Segue a médica.
E de repente,
vejo “isto”:

E à minha volta assomam-se 7 a 8 profissionais que me dizem que é a minha filha. E eu não consigo falar. Apenas chorar. Mas controladamente. Separado por um vidro. E por uma “caixa transparente”. Lembro-me dos olhos molhados. E lembro-me dela, ali, naquela “caixinha”, com aqueles tubos todos, tão frágil, tão pequenina.
Consigo ter o discernimento de tirar fotografias.
Começo a cair em mim e a ouvir a quantidade de barulhos, alarmes e ruídos. Não lhe posso tocar. Tenho um vidro e uma máquina. E choro mais um bocado. E pergunto pela Rute. E levam-me até à Rute. Um quarto tão pequeno que me senti em cima dela. Literalmente tinha a cama. Não lhe dei espaço. Senti-o nos seus olhos.
Parecia ter andado à luta com um dragão gigante, com um rinoceronte, com um elefante, com um leão, todos ao mesmo tempo. E ganhou. A minha Mulher! Heroína! Grande Mulher! Valentona! Corajosa! Tão forte! Tão guerreira! Que orgulho.
Caio em mim.
Sinto-me – pela primeira vez.
Forte. Clark.
Eu.
Ela perguntou pela Olívia. Disse-lhe qualquer coisa que não me recordo. Ficamos tranquilos por segundos. Toco-lhe. Faço-lhe festas ao de leve. Beijo-a na testa e nos lábios. Minha guerreira. Que orgulho.
E depois, sinceramente, não me lembro de mais nada. Só me lembro de tudo, mas não me lembro de nada. Foram muitos dias de seguida sem dormir, com o coração nas mãos, o medo no olhar, a incerteza em cada segundo de tempo.
A prematuridade é um assunto sério. Muito sério.
E os profissionais que temos são pessoas incríveis.
Não temos palavras.
Fomos rodeados de heróis, heroínas, salvadores, salvadoras, pessoas de uma grandeza tal que não somos nada ao pé delas. Meros discípulos da incerteza da vida. Meros observadores da verdade da incerteza. Meros oportunistas dos minutos possíveis de contacto com os nossos filhos em cuidado extremo, continuado e em permanente alerta.
A Rute passou 6 dias a recuperar das vísceras e feridas abertas da luta que teve com os animais acima referidos. Lutar com dragões, rinocerontes, elefantes e leões não deve ser fácil. Nunca lutei. Só sei o que vejo nos filmes. Tipo o Dicaprio a lutar com o urso no The Revenant. É preciso recuperar. A um ritmo incrível. A Rute foi assim. Lutou incansavelmente e conseguiu recuperar em tempo recorde. No próprio dia, ou no dia seguinte, já estava a ser preparada para dar de mamar (essa luta que as mulheres vivem), já estava a partilhar dos momentos que tinha para poder abraçar a Olívia. Os banhos, os cangurus, o mudar de fralda, de lençol, o dar de beber, tudo o que eram detalhes que hoje banalizamos, mas que ali, naqueles primeiros dias não sabíamos qual seria o último.
É isso mesmo. Não sabemos. Para mim, a minha primeira filha, foi uma sensação atroz. Violenta. Abrupta. Levou-nos tanta energia quanto a que repôs multiplicada. Não pude dormir com elas nesses dias. Nem com a Rute, nem com a Olívia. Só a Mãe pôde e esteve. Eu podia nas horas “legais”. Era violento para mim e para a Rute que mal dormiu. A minha filha. Não poder estar com ela. Que dor. E tudo era cuidado. E atenção. E cada dia demorava mais de 24 horas a passar. E era tão difícil ganhar peso.
Foram 6 dias de luta. E ao nosso redor, outras crianças. Algumas com muito menos condições. Recordo-me de dois bebés que tinham nascido com menos de 5 meses. Tão pequeninos. Que dor para os pais. Que situação. Que silêncio por falta de palavras.
Uma experiência de vida única.
E num dos dias, a Olívia ganha 20 gramas de peso.
E foi por isto que comecei o presente texto a lembrar a conferência de Coimbra… aquela em que o profissional conhecido falava das casas alugadas. Isto porque, dias mais tarde, como que se de um grito de vitória se tratasse, “partilhámos” este texto no Facebook:
Está lá tudo. Emoção. Destinatários. Likes. Comentários. Pessoas que ficaram eternas em nós. Mesmo aquelas que já cá não estão. É impossível agradecer-lhes. Vale a pena ler.
Quando a Olívia melhorou e teve alta, foi tempo de ir para casa. E assim continuamos as nossas vidas. 24 horas por dia ligados. Seguranças privados da maior pedra preciosa do planeta. Sem preço. Turnos. Rituais. Divisão de horas de sono. Eu ficava, literalmente, a vê-la respirar durante horas.
Este episódio foram mais de 1.000 quilómetros da minha metáfora. Foram 2.000! Já vamos em 5 milenas de quilómetros. A prematuridade da minha querida e amada filha Olívia deu-nos uma aprendizagem sem igual. Fez de nós outras pessoas. Por tantos e diversos motivos. Ainda hoje, sempre que olho para ela, recordo-me dos tempos das máquinas de bata azul… e a B16 e as nossas vidas pessoais falam disso nos anos seguintes.
E agora?
Se a Rute lutou com um dragão, com um rinoceronte, com um elefante e com um leão, com todos ao mesmo tempo, e trouxe ao mundo este ser maravilhoso; se os profissionais do Hospital Distrital de Faro conseguiram ajudar a cada segundo, a cada gesto, a cada olhar; se todos aqueles que nos rodeiam nos elogiam, encorajam e fortalecem com palavras de dentro, olhares verdadeiros e energias contagiantes; se quando fecho os olhos o cinema não passa da sétima forma de expressão artística; se tenho saúde…

E agora?