10 anos | Parte III – A vida passa depressa

15 Maio 2026

As frases que em criança me irritavam e faziam sentir que a Verdade e o Esclarecimento eram empurrados para diante fazem todo o sentido hoje. Quem as proferiu gostava de mim. Queria o melhor para mim. “Um dia irás perceber meu filho”, “quando fores mais velho eu explico-te”, “não queiras perceber tudo agora”, “há coisas que só a idade responde”, entre outras máximas que me deixavam possesso e fora de mim. Não há como encurtar o tempo. Ele explica tudo. A nossa mente assimila as coisas ao seu próprio ritmo. E nós, por mais sedentos que estejamos de respostas, não daremos o devido valor. Hoje, entendo; mas naquele tempo, não.

Também há a Intuição. Aquela sensação física que nos diz que há algo certo naquele ponto de vista, algo que faz mais sentido nesta escolha, um sinal que se nos detém biologicamente, capaz de nos levar a optar por aquela opção. Qualquer coisa de inexplicável que por vezes tentamos abafar com a razão e que, efusivamente, está presente na carga energética do que somos feitos.

A história de cada um de nós é feita das nossas vivências, do meio em que crescemos, das pessoas com quem nos relacionamos, das escolhas que fazemos, das oportunidades que agarramos. Da borboleta. Do nascer do sol. Do descansar até mais tarde. Do experimentar. Do saborear. Do repetir. Do sentir. Do querer. De tanto quanto não é possível definir. É o que somos. Porque somos. Quem somos.

Tenho lido mais. Tenho ouvido que é importante ler. Durante anos ignorei esta informação. Hoje percebo que quanto mais leio, melhor consigo perceber e decidir. Não porque decorei o que li. Não porque consigo replicar. Não porque sei o nome do autor ou do próprio livro. Mas porque percebi o significado do conteúdo. Porque assimilei. Recebi. Porque percebi a intenção da mensagem. Porque identifiquei a partilha e a adaptei à minha pessoa. Ao meu Eu.

A vida passa, efetivamente, depressa.

Recordo-me de fugir para baixo do sofá à espera de que o meu pai chegasse do trabalho e me viesse fazer cócegas. Eu era bebé, mas recordo-me. Tenho uma imagem na mente sempre que fecho os olhos e tento aprofundar esse momento. Cada vez mais turva, mas está lá. Talvez por isso tenha recuperado os sofás que já estavam velhos. Estes que estão na B16, com meio século de existência, totalmente renovados, clássicos e bonitos.

Recordo-me de brincar à porta da “nossa” casa de Linda-a-Velha com 3 anos de idade. Com os nossos vizinhos. Na rua. Com o meu mano a proteger-me dos perigos eminentes. Recordo-me dessa imagem.

Recordo-me das viagens de autocarro de Lisboa-Faro com o meu irmão e nossa Mãe para virmos passar o fim-de-semana com o nosso Pai à capital algarvia. Recordo-me dos autocarros de dois andares. De virmos nos lugares da frente do segundo piso. Recordo-me mal, mas recordo-me. Também nesta memória há algo que ganha forma dentro de mim.

Recordo-me de brincar com os cowboys, os cavalos e os índios Playmobil que tínhamos na casa da Rua de Santo António, tinha eu 4-5 anos. Estivemos pouco tempo nessa casa, mas recordo-me. Eram aqueles brinquedos. Não haviam outros. E recordo-me de os reinventar em cada momento.

Recordo-me da nossa casa na Penha. E da Escola Primária. Recordo-me da nossa rua. Do meu primeiro amigo Tiago Bandeira e do meu segundo amigo, o Valter Veríssimo. Recordo-me de crescer numa altura em que a rua era nossa. Em que vínhamos jantar quando ouvíamos o assobio do nosso Pai. De jogar ao berlinde, à bola, à apanhada ou ao esconde. Recordo-me de explorar. Recordo-me de sermos livres.

Recordo-me bem desse período. E quanto mais avanço no tempo, mais nítidas são as memórias. Depois disso vai ficando mais fácil. E hoje que sou pai, questiono-me que memórias terão os meus filhos quando chegarem à minha idade. Que memórias serão? O que ficará marcado nas suas mentes?

A infância. A adolescência. A juventude. A “pós-juventude”. A fase pré-adulta. A fase adulta. E agora, esta fase de maturidade absoluta em que me sinto a melhor versão de mim próprio. Não sei quantos anos me restam. Quero acreditar que, pelo menos, mais umas duas ou três décadas. É dúbio. Pela experiência e conhecimento, tento não pensar dessa forma. Prefiro fazer o exercício de lembrar que estou vivo agora. E é isso que importa: o momento presente.

A vida passa depressa, efetivamente.

Recordo-me de fazer a escola primária. Do primeiro ciclo. Do secundário.
Recordo-me dos amigos, das paixões, dos lugares.

Recordo-me de ser forçado a optar por uma de quatro áreas de ensino, na passagem do 9º para o 10º ano.
Mesmo sem saber onde estava e para onde queria ir. 
Escolhi ciências. O primeiro agrupamento.
Recordo-me dos bloqueios mentais típicos na (e daquela) idade.

E também já escrevi sobre a história da professora que não me deixou tirar uma fotografia à minha turma do 9º ano… esse episódio marcante e regenerador.

Recordo-me da encruzilhada entre o menino bonito e o menino rebelde. Entre o menino bem-comportado que montava a cavalo e talvez precisasse de seguir ciências para ser veterinário ou ter uma licenciatura em zoologia ou algo mais sofisticado como especialização equestre em Londres. E recordo-me dos excessos, rebeldias e irreverências. De parar e prolongar a mente na confusão da novidade, do prazer, da fama, do reconhecimento e da validação social. Das más companhias. Das más escolhas.

Recordo-me de chumbar no 11º ano por faltas. De viajar de comboio para ir às provas do campeonato nacional de skate ou aos concertos de hardcore da Academia. De ser vocalista. De fazer bodyboard. De ser skater. Recordo-me de muitas paixões femininas que tive nesses anos: umas platónicas, outras de fachada, umas brutalmente efusivas, outras bem reais. Outras esclarecedoras.

E recordo-me bem do dia em que entrei na sala de aula da disciplina opcional de “Oficinas de Expressão Dramática”. Estava no meu 12º ano, confuso com o rumo que iria levar a seguir ao secundário. Era uma escolha que me pressionava. Não ir para a universidade não era opção na minha família. Ou pelo menos eu nunca a quis confrontar. Eu não a confrontava. Aprendi a seguir o exemplo do meu irmão. Ia passando, contornando, encontrando o meu lugar. Que curso? Que cidade? Que notas? Disciplinas que perdiam a graça com determinados professores e outras que, inesperadamente, me mudavam a vida, sem eu saber para melhor. A Professora Ana Cristina Oliveira mudou a minha carreira profissional ao dar-nos uma disciplina tão simples, humana e essencial. Lembro-me de gostar de escrever letras para as músicas que berrava, mas nunca soube tocar, ler ou interpretar musicalmente. Era um hobby, de um grupo de amigos que se gostava e crescia em conjunto. Não era controlado. Não era intencional. Não era medido ou concertado. Não havia sílabas, métricas ou ritmo. Se não encaixava, gritava-as mais rápido; se era demasiado lento, eu levava-as no tempo. Mas com a Professora Ana Cristina aprendi que as palavras vivem no branco, no silêncio, no tempo e no espaço. Que há significados percebidos e significados associados. Que há expressões diversas, de validação, negação, interpretação que podem ser contrariadas com o corpo, com o olhar, com os lábios, com as sobrancelhas. Que há muito mais para além da ciência, da física, da química, da geologia, da matemática. Que há um mundo por descobrir nas ciências humanas, nas ciências sociais, na arte. Nas Artes. Que a comunicação importa. Que a comunicação diferencia. Que a comunicação separa e aproxima. Fiz teatro. Li peças, livros, poemas e dramaturgias. Escutei música. Vi bailados. Conheci coisas que sempre estiveram lá, mas para as quais não tinha ainda despertado a curiosidade. Não porque os meus pais não as conhecessem, mas porque eu não estava aberto para tal. Também me recordo de que, depois dessa minha experiência na Escola Secundária Pinheiro e Rosa, o foco apareceu. Não sei se de forma consciente – creio que não. Mas de forma inconsciente. Escondida. Emergindo.

Também me recordo de dizer aos meus pais que queria repetir duas disciplinas no ano seguinte: português e matemática. De informá-los que tinha sido convidado para participar numa peça de teatro em Lagoa. A Mandrágora de Nicolau Maquiavel. Eu era o Calímaco. Que iria ter vários ensaios semanais no Barlavento. Que precisava de um explicador. E que gostava de andar de skate porque me acalmava.

Os meus pais deram-nos tudo. Filosófica e psicologicamente falando, há capítulos nos livros que explicam todas as fases do filho em relação aos pais. Eu devo ter passado por elas todas; mas, por vezes, sinto uma vontade tão grande de os abraçar e dizer “obrigado”. Para o bem e para o mal, o processo educativo é assim. Para sermos quem somos, nos momentos certos, precisamos disto ou daquilo. E eu tenho muita sorte. Os meus pais perceberam, entenderam e fizeram tudo. Mesmo que não compreendidos.

Recordo-me bem desse segundo 12º ano. E recordo-me com muita gratidão. O apoio que os meus pais me deram foi importante, distintivo e transformador. Souberam esperar. Estiveram presentes. E eu não esqueço. A forma de agradecer é Ser. Provar, mostrar, fazer.

A minha vida era estranha. Se fosse explicada aos jovens de hoje em dia, chamar-me-iam maluco. Desenquadrado. Confuso. Frequentava 2 disciplinas no horário normal de aulas. Tinha explicação de Português 2 vezes por semana. Explicação de Matemática 3 vezes por semana. Devorava livros de exercícios de matemática com gosto, prazer e alegria. Fazia sistemas, equações de segundo e terceiro grau, derivadas, probabilidades, tantas e tantas fórmulas e desafios com gosto. Com intenção. Sentia-me a evoluir a cada dia. O meu explicador, o Professor Ferreira, ensinava bem e sabia motivar-me. Estudava e praticava todos os dias, inclusive ao fim de semana. Tinha aula de equitação ao sábado à tarde, em Vilamoura, e houve uma fase em que também montava ao domingo em Vale d’Éguas. Fazia bodyboard na praia de Faro quando havia ondas. Andava de skate quase todos os dias. Passava imenso tempo com o meu primeiro cão, o Renato Filipe. Tinha uma namorada e um vasto grupo de amigos com quem passeava e saía para fazer isto ou aquilo. Cumpria as minhas tarefas de casa e passava tempo com a família. Havia tempo para tudo.

Sigo um empresário nas redes sociais, escritor, palestrante e consultor empresarial, que diz muitas vezes que não nos podemos contentar com pouco. Se tivemos oportunidades na vida e se temos saúde, temos a OBRIGAÇÃO de provar a nós mesmos o melhor que podemos ser, por causa de todas aquelas pessoas que não tiveram o que nós tivemos e temos. Não há outra aceitação possível.

Depois de um ano concentrado, empenhado e focado na missão de melhorar as notas nas duas disciplinas que iriam fazer a diferença no momento de entrada na universidade, tive 15 a português e 19 a matemática nas provas globais. Não creio que existam hoje em dia, mas naquela altura, eram notas muito boas.

Lá estou eu a dar palmadinhas nas minhas costas, a atribuir-me medalhas e a validar-me enquanto pessoa…
Identificado.
Avante.

Missão cumprida. Era altura de escolher a universidade por hierarquia de prioridades. Foi o que fiz. E ainda escolhi candidatar-me a duas universidades privadas. Felizmente, entrei em todas as que escolhi. Falei com os meus pais. Passei um tempo a pensar. A refletir. A tentar uma aproximação à clareza consideravelmente aceitável de um jovem adolescente, confuso, baralhado, sem saber para onde ir. Qualquer decisão era fatídica.

Depois de alguns dias, escolhi aquela que para mim fazia mais sentido. A que me falava. Dei ouvidos ao tal instinto. Mesmo que fosse mais caro para os meus pais. Escolhi a Licenciatura em Comunicação Social e Cultural na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Porque os meus pais podiam. Porque os meus pais não se opuseram. Porque os meus pais me valorizaram.

E, num ápice, a vida de veterinário, zootécnico ou equitador, mudou para comunicador, produtor ou criativo. Um mundo que se abriu nesses anos de regresso a Lisboa, de conhecimento dessa cidade internacional, de convivência com a elite nacional, de aprendizagem, experiência, crescimento e iluminação individual.

Nesta catarse que tenho vindo a cumprir capítulo após capítulo, é importante este enquadramento. É importante esta explicação. É importante esta nota. Qualquer decisão traz consequências. E eu nunca perdi muito tempo no “e se”. A verdade é que, desde que entrei, tudo foi fluido, com sentido e valor.

Efetivamente, a vida passa depressa.

Tão depressa quanto o sinal que o nosso estômago emite sempre que pensamos nela. É voraz. Sente-se. É real. Sabemos que ontem fomos, hoje somos e amanhã poderemos ser. Sabemos porque já fizemos. Porque já vivemos. Porque já experimentámos. Porque já conhecemos. Queremos dar continuidade à infindável coleção de memórias, pessoas, lugares, sensações e sentidos. Passa depressa porque, de certa forma, nalgum momento do “ontem”, enquadramos a situação do “hoje” e projetamos o desfecho do “amanhã”.

Não tem fim a descrição. Ou melhor, poderia ter, mas é longa. E não quero deleitar-me numa divagação efusiva e interminável do Eu ou da minha história de vida. Não é esse o processo. Não é essa a intenção. A intenção é demonstrar como pequenos episódios mudam as nossas vidas para todo o sempre. É demonstrar que não estamos aqui porque sim. É demonstrar que o “aqui” e o “agora” têm uma razão de ser.

Quanto mais depressa passa a vida, mais queremos ficar nela. Mais queremos apreciá-la. Mais queremos recordá-la. Mais queremos fazer. Viver. Dedicar, contemplar, experienciar, partilhar, colecionar. E a minha vida é rica. Muito.

E assim foi a partir de 2018 na B16.

Sim, é isso. Estas voltas todas para chegar até aqui. Até este momento. Até este ano. Até esta fase da empresa. E dou estas voltas todas porque é nelas que encontro a verdade do que fazemos hoje em dia; do que somos enquanto entidade; do que construímos enquanto equipa; do que oferecemos enquanto infraestrutura; do que visionamos, do que sentimos e do que é essencial para nós enquanto seres humanos, enquanto pessoas. O propósito por detrás do produto ou do serviço. Foi necessário um caminho. Uma história. 

Olhar para 2018 é aceitar que a partir deste ano a empresa mudou. Consolidou o ritmo acelerado da sua produção. Aumentou o número de desafios de cada Cliente. Aumentou o número de Clientes. Estabeleceu-se no mercado com soluções inovadoras, como as ações no setor da “Cultura Organizacional”. Produziu conteúdos ao nível de grandes agências. Apostou na comunicação, na publicidade e no posicionamento de mercado. Diversificou as suas colaborações artísticas. E deixou marcas na história de algumas das organizações com quem trabalhamos.

Sem me aperceber, fui caminhando para as minhas responsabilidades de sócio-gerente, de empresário, de investidor, de gestor, assumindo sempre as de técnico-operacional. Queria mais Clientes, mais trabalhos, mais desafios. Queria trabalhar com mais pessoas, fazer mais colaborações, estar em mais lugares. Ainda sem consciência de negócio. Ainda sem conhecimento tácito. Ainda sem estratégia empresarial. Agindo. Automaticamente.

Bicicletas inteligentes, bonecos que despedem pessoas, primos samurai, pós coloridos, granadas de fumo, instalações de lixo e latas de graffiti, artistas plásticos, Marcas, logotipos, websites, carro novo, com cabelo e sem cabelo, unicórnios, casas que falam, aquários com tinta, projetos que nunca foram, política e políticos, moda, compras, os Herman, a Gisela, e o “the one”.

Falar de 2018 é falar de um ano em que o rumo da aprendizagem muda. Em que a perspetiva passa a ser outra. Em que o foco é outro. Falar de 2018 é falar do futuro empresário que ainda tem muito para aprender. Mas que quer fazer.

Um ano de trabalho, histórias, memórias, sensações, sentidos.

A vida passa depressa.
Efetivamente.
Tão depressa.

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